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Chegue mais...


Chegue mais.
Não se assuste ao entrar.
Senta-te e exponha teus medos.
Diga-me teus desejos e toque meu peito.
Limpa-me com tua língua e lave meu pensamento.
Seca-me com teu abraço quente e aperte meu corpo caso eu trema.
Sorria ao ouvir meus crimes e jure-me cumplicidade.
Eleja entre tuas armas a que for mais letal.
Mire com cautela em meu coração.
Mate o verme que o habita.
Tenha calma.
Não hesite caso te implore.
Seja eu ou o verme que te impeça.
Faça você o que não eu pude fazer sozinho.
Liberta-me para que eu possa escolher se vivo ou morro.
Se ao me ver livre desejar partir, peço apenas que possa me perdoar.

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GUERRA ILUSÓRIA


Longe do acerto, bússola incerta.
Paixão sem conserto, pústula aberta.

Firulentas ondas de marolas velhas
Sal salgando os sujos e saudosos cegos.
Peles de pelego preto num pelejo pétrico.
Fetos afetados, filhos de um efebo fétido.

Rotas impedidas dentro da memória.
Marcas e feridas, guerra ilusória.

Breu embebedado em bruma de bravio brejo.
Cristos de cristais e cistos de sisais decrépitos.
Pestes, putas e pedintes; poetas e patifes pérfidos.
Céu sereno e cinza. Cinza sou eu, insípido César.

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QUERO FRUTOS


Quero frutos
Quero frutos de saborosos sumos e salivantes caldos.
De alucinantes gomos e instigantes ácidos.
Quero a cica de cajus na superfície das peras
E o doce das mangas em vermelhas nêsperas.
Quero sugar o néctar de uma jabuticaba-sem-fim nem caroço.
E um pequi sem espinhos pra colorir o almoço.
Quero bananas que já nasçam com canela e abacaxis recheados de hortelãs.
Abacate doce, de carne madura, e uma espécie de coco com água de maçãs.
Quero desvendar o fruto proibido e me lambuzar nas texturas do prazer,
Uma arvore que me apresente um novo fruto a cada amanhecer.
Caesar Pierini

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A Menina Risonha


A Menina Risonha

O que se esconde nos cabelos
Da risonha, então, menina?
Dente, pena ou flor;
Linha, fio, purpurina.

Quais mistérios se ocultam
Sob os vestidos violetas?
Curvas infinito-constantes,
Estrelas, patuás e borboletas.

Roda o mundo, e o pescoço dos moços.
Roda o raio da cerebrina.
Quando roda sua saia.
É roda. É saia. É Josefina.

Caesar Pierini
Guayaquil – 21/12/08

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VOU-ME EMBORA PRA BAREQUEÇABA


Vou-me embora pra Barequeçaba.
(Caesar Pierini)

Hoje estou livre!
Livre das correntes que me prendiam o corpo
Dos trapos que me vendavam os olhos
Das mãos que me tampavam a boca.
Sinto o vento a me bater de frente
Os cabelos bagunçarem.
Vejo as pessoas me olharem,
Os semáforos abrirem,
As moças dos caixas me sorrirem
E os trens, enfim, partirem.
Onde estavam todos?
Em que escuridões se embrenharam os meus olhos?
Não quero saber!
Quero viver, e sentir e correr.
Correr como um louco, desvairando, entre os prédios, entre os carros.
Quero mudar de casa, construir uma casa.
Quero não ter casa, casos, lances e enlaces.
Farei da vida um acaso.
Caso mude de idéia, mudarei, por acaso.
Caso eu case, casarei por um acaso,
E só por isso, eu caso!
E só por isso escreverei,
Por isso cantarei,
E, meu pranto, derramarei.
Vou cortar meus cabelos,
Arrumar minha cama,
Perfumar meus travesseiros
E regar minhas plantas.
Vou-me embora pra Barequeçaba,
Pois Pasárgada não existe.
Seu Manolo me perdoe,
Mas Bandeiras, lá, são chistes.

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PARCIMÓNIA AQUARIANA


PARCIMÓNIA AQUARIANA
(Caesar Pierini)


Para que temer meu lado bicho,
Se é dele que brota o desejo?
Vive recusando minha fera,
Sabendo ser isso que te instiga.
Teima em fugir da minha fúria,
Sendo que, dela, lambuzou-se tantas vezes.
Por que se esconde dos meus olhos?
Eles que te enxergam, te conhecem e aceitam!
Insiste em ocultar-se,
Mas não suporta a distância.
Escraviza o tempo ao sufocar o intento,
Quer e não; some e aparece.
Ladra e treme; cheira e corre...
Diz que parte, sem dar as costas.
Manda-me embora
Estendendo-me as mãos.
Busca não desejar,
E beija.
Quer não mirar,
Mas vigia por olhos interpostos.
Planeia não me amar,
Sem saber como.
Foge sem ter para onde ir.

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...QUE SEJA EU E NÃO, AO MESMO TEMPO.


...QUE SEJA EU E NÃO, AO MESMO TEMPO.

Não, eu não estou louco!
Apenas dou vazão à torrencial forma da abstração,
Viva e em ebulição, sob a superfície do meu tórax.
Trago no peito um desejo intenso
De ver, pelos olhos meus, o corpo que me pertence
No seu-meu momento mais íntimo de prazer.
Eu, de mim para outrem, que seja eu e não, ao mesmo tempo.
Descobrindo que sabores possuo quando minha pele é espoliada,
Em quais recôncavos se escondem minhas delícias.
E quão cálidas, pulsam minhas saliências.
Quero sentir com que força jorram meus fluidos
E com que rapidez os pelos se eriçam, ao toque dos dedos meus;
Conhecer o calor da minha língua sobre toda sinuosa ou estreita curva
E a fome com a qual, minha boca, sugaria a fina pele que cinge os pescoços.
Quero saber quantos graus meus olhos se elevam nos últimos tremores
E o cheiro que meus poros exalam, após o derradeiro suspiro.


Caesar Pierini

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A FERIDA ESTANCADA

Depois de tantas vezes
Abrir a ferida quase estancada,
Apenas para ver
Se ainda corria sangue
Sobre o tecido morto e purulento,
Fecho-a com a agulha da tristeza e pena.
Já ali, não mais corre o sangue,
Somente pus e toda a classe de moléstias.
Mas a carne não morre
E, bem cosida, se regenera.
E pulsa o sangue novo.

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E AO PARAR, PROSSEGUIA


Com a mão sobre a curva das costas, respirava e seguia.
Respirar era o que restava
Seguir se fazia necessário
E a necessidade, por sua vez, vital.

A vitalidade vinha com fome
E a fome com desespero
O desespero com ira
E a ira, dentada.

Os dentes rangiam
O ranger agoniava
A agonia sujava
E a sujeira assustava

No susto, eu movia,
E, por mover, me limpava
E a limpeza molhava
E ao molhar, me sujava.

E quão mais me movia
Mais molhado ficava,
Mais imundo, ficava,
Imundo, molhado e movendo.

E ao mover me cansava
E molhado ficava
E imundo eu movia
E cansado eu parava

E cansado eu parava
E parado eu olhava
Eu, imundo, me olhava
E molhado parava.

E ao parar eu olhava
E, por olhar, me movia
E me movendo eu andava
E ao andar me secava.

E me secando, limpava
E, por andar, me movia
Ao mover, me secava
E ao secar me olhava.

E quão mais me olhava
Mais eu andava
E quão mais eu andava
Mais me secava e a sujeira caia.

E a sujeira caia
E eu que, andando, limpava
Enfim parava.
E ao parar, prosseguia.

Caesar Pierini 28/09/08

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DOIS

Par são dois
Dois hemisférios.
Dois não meus
Ausentes, zero!

Dilibido duoengano
Amoricos sofregeanos...

Sinistr’alvo ardia em chamas
Destr’ocre em epifanias

Por dois glóbulos mirava.
Três, com si, Paris julguva.

Mãos pra trás
Seus dois retinha

Ao sagrar
Não mais se via

Foi assim, sofrido dia,
Sinistr’alvo então partia

De rompante passa-à-fora,
Foi na mais senil das horas.

Destr’ocre permanecia
Eu em sua mão, ele na minha.

Mas passado pouco tempo
Fez-se o amor um sofrimento

Quando Destr’ocre notara
Que em sua mão que sobrara

(E que, então, parecia vazia)
Outro alguém ali trazia

Vi findar-se a epifania
E esvair minha alegria

Eu que só, agora, vivo
Relembrando o ocorrido

Peço que o tempo não sobre
Escrevendo rima pobre.

Par são dois
Dois hemisférios.
Dois não meus
Ausentes, zero!

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A EXPECTATIVA

Há quem diz que existe um tempo do plantio.
Há quem vive, pela esperança do colher;
Outros se lastimam receando que o plantado não vingue,
E os que plantam sem saber que o fazem.

Há quem diz que existe um tempo da colheita.
Há quem foge, pelo medo de colher;
Outros se deleitam no plantado que vingou,
E os que colhem sem saber que haviam plantado.

Há quem diz que colheu o que não plantou.
Há quem persiste, pelo rebento desejado.

Se há quem já assim colheu, por favor, me esclareça,
Quanto ao nome deste tempo e se vinga nova ceifa.

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O EXORAR DO BULÍCIO

Despertei em quase-vida.
Exorei, diversas vezes, pelo bulício de quedar-me em pé.
Sobre a horizontalidade que me prendia pela pélvis,
Fiz-me vértice em ângulo reto.
Suspirei.
E verticalizando, desvendei a tênue linha criadora que oscila entre o tédio e o desespero.

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O POEMA DA HORA SEM NOME

É na hora do teu gozo, com gente imunda, que te ocultas da lembrança.
É nesse compuscar do vazio que te olvidas da memória da beleza.
Do predicativo NOME, que se metamorfoseia em MITO e se torna inalcançável...
Vislumbras um banquete, mas crês que não é para ti.
E te sacias pelas migalhas.

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ILLU ITERARE JOCOSU

És, agora, a mão.
E eu, o cão teu.
Que em minha boca
Trago à ti, uma vez mais,
O toco de seco pau
Para que eleja em qual rumo
Irei iterar minha angustia.

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A MÃO NOSSA

Quando só,
Em minha casa,
Meu corpo sentia sua falta.
Fechando os olhos, transformei minhas mãos em tuas.
Tuas mãos eram firmes ao tocar meu corpo.
E pouco tempo foi necessário
Para tomar de mim
O prazer que, não mais, me pertencia.

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O OSTENTAR PRESCINDÍVEL ou O POEMA DA GRAÇA CONTESTADA

Questionei-me se teria eqüitativo mérito, expressar-me a ti, pela forma que a mim, mais augusta se apresenta.
A tentativa de grafar, mesmo que, de inepta, erronea e equivocada forma.
Em pelejo com meu tempestuoso ego, que por ora me corrompe, proponho-me a fazer.
E sem que a necessidade da ofensa me controle; e tampouco desejando que haja beleza nisso,
O que tenho a dizer é simples.
Não sei qual, dentre os sentimentos existentes, irei alimentar por você,
Mas sei exatamente o que penso a teu respeito.
E não discuto!

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SÊ RIDÍCULO

Não te espanta quão fugaz é o tempo?
Não vês que sou belo e moço e alvo...
...E que por tardar, poderás encontrar-me em leito à outra companhia,
Derramando sobre estranha cama o fluido do prazer meu, que então, te pertence?
Fecha teus olhos e sê ridículo como agora sou!
De que vale viver resguardando-se das delícias oferecidas pelo risco?
Toma-me pelo braço e faz-me solfejar as sílabas do teu nome, sem que me sobre o ar,
Que por ora é minha singular companhia...

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AINDA ASSIM

Ainda que meu saco tivesse o dobro do tamanho que tem
Ainda que eu fosse um yogue, frei ou um monge zen
Ainda que me dopasse pra ver depois do darma o que é que vem
Ainda assim, seria capaz de irritar-me como ninguém.

Quiçá se soltasse a fictícia cruz que pintaste
Quiçá se crescesse e teu falo pesasse
Quiçá se soubesse que é feio o que fazes
Quiçá assim, não mais me atormentasse.

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INDIGÊNCIA VOLUNTÁRIA

Que se afugentem de mim os amantes e seus constantes ai-de-mim’s!
Sendo que, quando diante da real volúpia,
Embrenham em seus olhos o cativo hesitar.
Paradoxo literal dos devaneios de prazer.
Vejo-me só, com apenas um olho aberto, em meio a cegos voluntários.

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VOCÊ

Tão belo é você...

...Dono supremo do meu calado prazer.
Brisa transcendente que me envolve o corpo e a mente.
Chama que me arde e me acende plenamente,
Sopro de desejo que me escorre pela pele, entre os pelos.
Viciando-me por um toque, por um cheiro.

Tão belo é você...

...Que meu corpo pede instintivamente.
Vem!
Toma-me loucamente,
Ama-me eternamente.
Derrama sobre meu corpo o sumo do teu prazer.

Tão belo é você...

...Que sempre que vier, terá meu peito a te aquecer
E minha carne a saciar o teu prazer...

...Pois tão belo é você.

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