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LUA EM VIRGEM


Um cigarro antes de qualquer ação mental ou física.
Um cigarro após toda e qualquer ação mental ou física.
Dois cigarros se encontram entre ações e por garantia um terceiro cigarro torna o encontro oficial e justificável.
Roupas velhas ficarão juntas na mesma gaveta. Mesmo que nunca as tirem de lá, mas permaneceram unidas como desempregados em um hall de entrevista.
Roupas do fundo saem. Não por caridade, mas para abrir espaço à recém roupa velha. Roupa-velha-nova deve ficar por cima para que se acostume e aprenda gradativamente seu lugar no esquecimento.
O feijão vai por cima do arroz, caso contrário seria feijão com arroz.
Sair pra trabalhar sem banho-seguido-de-chá quebra a fluência do dia.
Um dia começa errado e termina errado.
Um dia começa certo e pode terminar errado.
Telefones são objetos parasitas que transitam da cama para o banheiro, para os bolsos e entre as bolsas.
Pela manhã um comprimido polivitamínico e um café para entrar no ritmo. À tarde um remédio para dor de cabeça e outro café para manter o ritmo. À noite um antiácido para o estômago agredido pelo remédio da dor de cabeça e um calmante para romper o ritmo.
O fio dental deve ser passado antes de escovar os dentes.
Liga-se a TV para dormir.

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A DERRADEIRA CANÇÃO


“De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto...”

Teoricamente, assim seria um final.
Do nosso riso não se fez o pranto. Já não havia riso.
Um fim sem pranto, sem riso, sem cor, sem nada.
Espera-se reconhecer a dor sentida nesses momentos. Nem mesmo sei que dor eu sinto.

Talvez seja o nada que, agora, me maltrata o peito.
Talvez a mínima possibilidade de crer que fui um louco e que a lógica das razões se manteve destorcida em minha mente por lentos e vazios anos.
Sempre tentando te mostrar que você não era o que pensava ser. Que é sendo o que se é que se encontra a beleza.

Na tentativa de te desvendar me perdi. Perdi-me de mim e dos meus valores, dos meus gostos, meus anseios.
Sublimei minhas vontades e disfarcei meus medos.
Buscando te libertar me prendi a uma possibilidade pequena. Impossível.

Talvez eu estivesse enganado. Talvez a beleza que enxerguei por trás de tanta couraça fosse apenas um desejo meu.
É provável que nada exista. É possível que o que você tem de melhor tenha sido inventado por mim. E eu nem posso te culpar.

Queria mesmo era pedir desculpas.
Desculpe-me por cobrar
algo que você não tem pra oferecer e nem – nunca - entenderia.
Desculpe-me por achar que algo especial germinava em teu peito.
Desculpe-me por esperar que fosse alguém que nunca será.

Lembro-me de que sempre te incomodou o fato de que eu guardasse de ti uma imagem leviana. Saiba que minha brutalidade e aspereza se fundamentavam em uma singela esperança que agora se desfaz.
A culpa é toda minha e você sempre teve razão.
Equivoquei-me ao avistar em teus híbridos olhos uma auspiciosa epifania.

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ALGUMA COISA ESTÁ FORA DA ORDEM



Algo está faltando.
Seriam as cores?
Uma delas, talvez.
Se eu soubesse quantas existiam, poderia me assegurar de que ao menos uma deixou de existir.
Acho que não. Eu perceberia a ausência.
A ausência de uma cor é a cor-de-nada. Tudo tem uma cor, claro!
Preciso me certificar...
... Se uma coisa existe; Eu a reconheço pela forma e cor. Caso essa cor mudasse, mudaria para outra cor da qual eu notaria. Causaria-me espanto descobrir uma nova cor.
Uma cor não altera o fato de algo existir. Então, se uma cor simplesmente sumisse, ainda assim reconheceríamos a matéria cor-de-nada.
Ai que complexo. Ok, não são as cores.
Seria o tempo?
Poderia ser!
O tempo é indiscutivelmente assimétrico!
Quem garante que o tempo não muda?
A terra gira em torno de si enquanto dá um passinho discreto em torno do sol. Além do sol, em que podemos nos basear para certificar-nos de que um dia começou e terminou precisamente no mesmo horário em que o anterior?
Nas estrelas – Vocês dirão.
Eu não confio nas estrelas! Quem garante que uma estrela safadinha também não resolveu passear, só pra dar a impressão de que o tempo esteve trabalhando?
Por acaso ninguém nunca bateu o cartão pro colega que chegou atrasado?
Muitos, se lessem, pensariam: “Que louco esse rapaz.”
E eu digo pensariam, pois ninguém lê nada. Quanto mais a mim, que nada sou.
Mas, se por ventura alguém me lesse, esse sim pensaria que sou louco.
Dentre eles, os conceituais e os medíocres!
Os conceituados ainda respeito, pois se baseiam em parâmetros que necessitam de empenho para serem definidos. Mesmo que todos os conceitos tenham sido inventados, pois tudo é uma dedução.
Inventamos a família. Um conceito que só existe na teoria, constituído por pessoas que competem entre si e se deliciam ao ver o fracasso consangüíneo.
As pessoas casam e juram ser monogâmicas até o limite da vida. Um finge, bem mal, que é fiel e o outro finge que acredita. E por qual motivo? Dizem que Deus quer que seja assim.
- Pronto, dei motivos para que achem que minha família não presta. –
Inventamos leis. Que punem as únicas coisas autênticas que um homem pode oferecer. Os instintos.
Inventamos a bondade.
Eu duvido que alguém seja bom sem interesse. Seria alguém bom, se pudesse fazer o que sente vontade sem ser preso, punido, demitido ou abandonado?
Temos que ser bons. E por qual motivo? Pois Deus quer que seja assim, dizem.
E o que Deus faz com quem não é bonzinho? Vai queimar aonde? Ah!...
Eu espero que o inferno exista, pois seria muito revoltante ter sido hipócrita uma vida inteira. Não é, gente?
Agora, o que são os medíocres?
Poderia eu me irritar com gente dessa espécie?
Não deveria, mas afinal eu não sou católico. Posso transgredir algumas regras.
Eu observo atento a toda objeção medíocre que me fazem, para me certificar de que eu posso sorrir disfarçadamente por um cantinho da boca.
Caesar Pierini

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A MAÇÃ PODRE


A MAÇÃ PODRE
Tenho amigos com defeitos deliciosos. Poucos.
De uma característica das mais horrendas, a verdade. Capazes de dizerem uma verdade com a delicadeza de um tapa.
Numa sociedade em que ser ganancioso é pecado, dizer que odeia alguém não é bonito; onde sentir inveja é apenas uma invenção (quando em primeira pessoa), ser verdadeiro é um crime.
Ninguém odeia ninguém, ninguém sente inveja, ninguém tem ciúme e ninguém, mas ninguém é adúltero; embora todos se matem, façam fofocas, digam mentiras por algum motivo justificável.
Em um dos lugares que trabalho a lógica é bem engraçada. Lá, a maçã podre é quem reclama e não quem erra. Lá, pode-se não falar, não pensar e nem questionar.
Nesse lugar quem fala a verdade é punido, mas quem mente é querido.

... Era uma vez um rei que queria novas vestes.
Espalhou um edital convocando alfaiates para que mostrassem suas idéias e assim o rei escolheria quem seria o felizardo realizador de seu capricho.
Centenas de pessoas se apressaram em lhe ofertar os mais dignos tecidos, até que entrou um cristão no salão real com as mãos vazias.
O rei olha o cristão e lhe pergunta. “O que você tem pra me oferecer?”
“Tenho tal tecido mágico em minhas mãos, qual somente os inteligentes podem enxergar.”
O rei, para não demonstrar que nada sabia, exclama:
“Nunca vi nada tão lindo. Está contratado!”
Uma semana depois, com suas “roupas” mágicas prontas e o com cristão já longe de lá, o rei anuncia que irá desfilar com sua roupa nova. - Sim, o rei tinha uma tendência à moda.-
Todos os súditos saíram nas ruas, curiosos para verem o tecido mágico do qual somente as pessoas inteligentes poderiam enxergar.
Com uma botinha de cor neutra, pra combinar com a cor que fosse seu vestidão misterioso, sai o rei a caminhar por entre as ruas.
As pessoas todas mui inteligentes, é claro, comentavam da beleza que viam nas vestes do rei.
Surge por entre as pernas de duas velhas mexeriqueiras um menininho escorpiano que grita:
“Olha a bunda do rei!”
Todos acharam um absurdo e lincharam a criança.
Pronto, acabou a história. Isso, o menino morreu e o estilista abriu um ateliê na Oscar Freire e ganha rios de dinheiro. FIM.

"SORRIAM"


“Sorria, isso basta.” – Dizia a inscrição de um panfleto.
Basta para que?
Para que meus dentes apareçam, meu consentimento seja afirmativo, minha feição não force ninguém a pensar.
“Sorria, você está sendo filmado.” – Dizia o cartaz em uma loja.
Por acaso o segurança é dentista? Caso eu sorrisse seria classificado como alguém correto, inocente e cristão?
Quando me dizem “sorria” eu tenho vontade de mostrar a língua e um dos dedos.
Como quando vamos tirar uma foto, quem paga sou eu. Quem decide se devo sorrir ou não?
O fotógrafo? Por favor!
Riu bem e quando achar que devo!
Riu largo, alto e forte. Pessoas me olham e, de repente, rir é um crime.
À pouco a ordem era rir, mas comedidamente. Riso largo assusta a gente rasa.
Pois que se afoguem em suas superfícies!
Eu quero mais é rir, quando quero e se quero.
Enfiem suas placas-motivadoras em seus orifícios e deixem que eu decida pelos meus.
Agora, sorriam!

O olho maior que a barriga.



O olho maior que a barriga.

Ok, eu menti!
Que a Drika me perdoe, mas seu entusiasmo e boa vontade foram os culposos agentes de minha falta.
Menti, mas não por maldade, por carinho.
Eu achei horrível o tal lamem japonês.
Aquilo era a personificação de um paradoxo e irei justificar.
Esperei, por uma hora, na porta de uma casa de comidas orientais em que, segundo a opinião de Drika Matheus, eram preparados os melhores lamens (macarrão oriental) da cidade.
Ao entrar, fomos atendidos por pessoas pouco humoradas que nos conduziram até um balcão...

Eu entendo a falta de humor neste caso. As pessoas eram japonesas e estavam trabalhando no Brasil em um horário em que no Japão elas já estariam acordando, mas por estarem no Brasil ainda nem tinham ido dormir. Uma constatação com-fusa de horários. Entendem?!

... já no balcão, fomos recomendados a experimentar uma deliciosa iguaria nipônica. Um lamem especial, acompanhado por guiozas que posteriormente descobri serem suínas.
Porcos à parte, a guioza estava ótima.
Por um real de acréscimo, a iguaria passava de normal para “big”. (E eu digo “big”, pois não sei escrever grande em japonês.)
E acreditem, era “big” mesmo!
Imaginem um urinol clássico-medieval em porcelana pintada. Uma espécie de sopa com vegetais, carnes e muito caldo.
Explorei a sopa, com toda a particularidade que dois palitos podem oferecer, e encontrei uma porção de miojo – lamem – no fundo daquele penico. Eu olhei o caldo, o espaguete sem fim e os meus dois palitos. (Gente, palitos!)
Sem hesitar pedi que me dessem uma colher e um garfo.
Aí o paradoxo: Uma sopa cuja colher não pega o macarrão e o garfo não admite o caldo, servida com apenas dois palitos de madeira. E o pior, o meu era “big”.
Isso me fez lembrar que no Japão o horário de almoço é de apenas quinze minutos.
Um indivíduo que trabalhou quinze horas por dia, sete dias por semana, tem apenas quinze minutos para ingerir um balde de sopa escaldante, com um gosto bem peculiar, usando palitos.
O que estão fazendo a ONU, a WWF, o Greenpeace ou o Buda que não notaram isso?
Japoneses, abram seus olhos!

Caesar Pierini.

SOMENTE OS FEIOS SÃO FELIZES

Somente os feios são felizes...
Desde o princípio dos tempos existem frases como “O conhecimento é pai do juízo e da culpa”, que nos deixa entender que uma pessoa bem informada é capaz de perceber quando está agindo mal. A falta de conhecimento pode levar um indivíduo a praticar um ato ilícito de maneira inocente. Dizem, mas nós podemos fazer-duvidar e fazemos.
A culpa pode até ser filha de pai solteiro, o conhecimento, mas não é filha única.
O “conhecimento” deveria ser classificado pelo gênero feminino, de nacionalidade brasileira e católica, pois trás consigo uma quantidade de filhos não planejados, que somente pelas justificativas do papa alguém poderia gerar.
Um dos filhos mais vilanazes do conhecimento é o critério.
Disfarçado de discernimento, o critério torna-se um empecilho na vida de uma pessoa solteira.
Minha gente, uma pessoa solteira, por necessidade imposta - e seja esta de qualquer origem - não deveria ser tão criteriosa.
Mas o critério é um “bem” adquirido e não contém glúten nem data de vencimento. Após contraí-lo, ele permanecerá ao seu lado até que a morte os separe, caso ele próprio não te leve ao encontro da morte.
Só estão imunes aos malefícios oferecidos pelo uso inadequado do critério as pessoas feias.
Estas, mesmo que detentoras do conhecimento, criam um certo tipo de anticorpos que combatem as barreiras criadas pelo critério. E assim, eu suponho serem mais felizes.
As pessoas feias vão para uma festa com um único objetivo de se divertirem, algo mais que possa lhes acontecer será lucro. E na possibilidade de que nada aconteça, elas – as pessoas feias – voltam para suas casas livres de qualquer desapontamento, pois a solidão sempre foi a possibilidade prevista em seu futuro inocente.
Uma pessoa bonita, não. As pessoas bonitas sofrem, quando inteligentes.
Sempre envolta pela possibilidade de conhecer alguém interessante – e este “interessante” vem acompanhado de inúmeros adjetivos positivos – uma pessoa bonita não se diverte em uma festa. Sempre atento em seus movimentos, frases e gestos, para não demonstrar vulgaridade, o bonito(a), mesmo conhecendo “aquela” música bagaceira, finge não saber a letra e seu autor.
Após uma hora na pista, o bonito vai até o lavabo mais próximo para se secar, pois está começando a suar e tirar a camiseta seria interpretado, por pessoas tão criteriosas quanto ele, como um ato animalesco e irracional.
Após voltar do lavabo, a pessoa com a qual estava flertando já tirou a metade de suas roupas. O que encerra a possibilidade de flerte entre duas pessoas, sendo uma delas bonita e inteligente. Critério maldito e indesejado.
Quando por um momento de sorte, ao voltar do lavabo, seu paquera ainda está trajando alguma peça fundamental de roupa, pode-se iniciar uma conversa. E esta situação é das mais delicadas, pois existe uma prova-filtro em que o paquera deve tirar no mínimo um 8.5, que aqui descreverei:
· Não pode haver o uso de “mim” antes de qualquer verbo.
· O uso de clichês para conquista denota reprovação imediata.
· Dicção - Timbre escandaloso perde dois pontos. (Pode-se levar em consideração o volume do ambiente.)
· Que na lista dos últimos filmes visto pelo “candidato” tenha ao menos um filme europeu.
· Que não exista, dentre seus livros de cabeceira, Paulos Coelhos e nada de auto-ajuda.
· Que a pessoa tenha uma profissão interessante ou esteja em busca de uma.
· E que ao sorrir seus dentes estejam limpos.


Caso você discorde disso, faça uma analise antes de criticar.
Repare na balada que o bonito e inteligente está sempre sozinho, seco e dança de maneira consciente.
Já os feios ou pouco inteligentes estão beijando, molhados e dançam com seus olhos fechados.
Mas não se enganem, os bonitos podem simular estar nas mesmas condições, em uma tentativa de comungar do todo que vibra em torno de si, sem nunca terem se sentido parte daquilo.
Desconfie também se você for muito cantado na balada. As pessoas cantam pouco os bonitos, pois acham que vão ganhar um não, antes mesmo de tentarem.
Caso você se sinta ofendido ou ache que sou neurótico, isso tem uma explicação:
Você, ou é feio ou é burro.

Texto: Caesar Pierini
Foto: Um leitor descontente com o conteúdo do blog. rs

ANÁLISE DE PROPOSTA

Recebo uma proposta:
Uma cama quente, em uma noite fria, com pelos e peles que friccionados num ritmo constante e métrico me conduzirão a uma parcial e satisfatória exaustão físico-não-emocional, da qual baseia-se na erupção e troca torrencial de fluídos mornos, por sentimentos questionáveis.
Contras:
· Do ponto final, para realizar o ato em questão, até o ponto inicial em que me encontro, portanto: Sf – So, percorre-se uma distância de quatro quilômetros.
· O caixa eletrônico já está fechado e não possuo mais que moedas em minha carteira.
· Táxis, na sua maioria, não aceitam cartão.
· Calculando que terei que sair para trabalhar na manhã seguinte em aproximadamente oito horas, menos o tempo que gastarei para andar quatro quilômetros e o tempo em que minha virilidade supõe minimamente necessária para colocar em prática a dita função, acabarei dormindo em torno de cinco horas e meia.
· ... Esqueci do banho. Precisarei tomar banho. Antes e depois.
Prós:
· Hoje é sábado e amanhã só trabalharei pela manhã.
· Não preciso mais do que quatro horas de sono.
· Ainda não tenho sono.
· Caso eu fique, assistirei a um filme do Pasolini. Ficarei excitado e, em seguida, arrependido.
· Sou um mamífero, pertencente a uma classe de animais que se dizem racionais, movido por impulsos e instinto.
· Produzo testosterona diariamente, gerando um PIB de ordem privada que me dá o direito de escolher onde investir. Sendo em medidas provisórias ou não.

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RESPEITO


Respeito.
Dizem que existe e eu não acredito.
Respeito foi inventado só para justificar a falta dele mesmo.
Ninguém saberia o seu significado, se nunca tivesse sido desrespeitado..
Tem gente que confunde respeito com valor, admiração e pelo ato de agir validamente.
Ter respeito, às vezes, é poder mentir uma opinião sem sentir-se culpado.
Eu respeito muita gente, socialmente. Mas lá no canto dos meus lábios, guardo um pequeno sorriso de escárnio.

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EVOLUÇÃO (IM)POSTA


EVOLUÇÃO (IM)POSTA

Acho que sou mais conservador do que imaginava. Gosto das definições e exclusividades.
Essa gente, hoje, é muito moderna. Acredito nas mudanças e evoluções, entre as relações, e respeito as escolhas de cada pessoa.
Instituímos vínculos, afetos e formas de executá-los.
É difícil manter o equilíbrio e a ordem, dentro de uma relação com características mais conservadoras, mas ainda assim, possuímos referências, sejam elas externas ou adquiridas pela experiência própria.
Agora, em que se baseia ou como se fundamenta um vinculo afetivo moderno?
Quais parâmetros possuímos para classificar o que é certo ou errado, quando duas pessoas decidem manter um vínculo não-exclusivo?
Não deve existir resposta objetiva, pois nem regras existem.
Hoje eu estou me sentindo muito careta, mas prefiro que seja assim.
Vou dormir de cara amarrada, mas não precisarei disfarçar um sorriso inventado.
Não busco moral, apenas respeitar meus sentimentos

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Discorrer em meio ao tédio.


Era uma vez uma quarta-feira chuvosa.
Dessas que a chuva chove e nem molha,
Dessas que nada acontece e ninguém aparece.
Sentado sobre a perna dobrada, as mãos coçavam as sobrancelhas com o que restava das unhas.
De quem? As minhas!
Entre os cigarros fumados, os braços se cruzavam, e descruzavam com paciência pueril.
O cheiro do cinzeiro me obrigava ir até a lixeira.
E a pilha de pratos me convidava a sair dela. A cozinha.
Pessoas empilham livros, pratos, cartas, jornal.
Ultimamente ando empilhando vontades. Vontade é uma coisa curiosa!
Tenho vontade de coisas que, se não as empilhassem, certamente, me deixariam louco.
Do “pretérito” louco. (nem adjetivo, substantivo ou sujeito, nem objeto, seja ele indireto ou não.)
Gente louca não empilha nada! Eu sei pelo pretérito...
Que inconveniente pode ser, às vezes, o pretérito!
A inconveniência me faz rir por longos e em distintos momentos.
Acreditava sofrer de vergonha alheia, mas estava enganado. Ela me inspira e diverte.
Será que Benjamin Franklin teria vergonha da inscrição em sua lápide?

"Aqui repousa, entregue aos vermes, o corpo de Benjamin Franklin, impresso, como a capa de um velho livro, cujas folhas foram arrancadas e cujo título e douração, apagados. Mas nem por isso a obra ficará perdida, pois reaparecerá, como ele acreditava, em nova e mais elegante edição, revista e melhorada pelo autor."

Eu, seguramente, teria!
Quando eu morrer, dispenso essas frases.
Aliás, para que não corra esse risco, deixo uma sugestão:

“Olá gente presente.
Se não tiver banquinho, pode sentar na tampa de granito, pois eu não gosto de visita em pé.
Se for chorar, faça em tom baixo, pois tem gente repousando dos dois lados.
Ao invés de rezar, leia um conto da Hilda Hilst.
Desejo que volte sempre, mas que não fique aqui.”
Caesar Pierini – Artista, ansioso, apaixonado, chorão, sorridente, impaciente, curioso, genioso, brasileiro e escorpiano.”

Cemitérios, geralmente, são verdes. Eu gosto de verde.
Me sentirei em casa, em uma quarta-feira chuvosa.
O que fazer num dia desses...
...Vou fechar a janela!
Obrigado Benjamin Franklin, moro no ultimo andar de um prédio velho.

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meus meninões






Meus meninões!
Gosto de olhar e ver que, em breve, serão jovens e adultos lindos.
Gosto de ver que eu também vou envelhecer e que a juventude permanecerá em meus olhos devido à presença de vocês.
Quero ser cúmplice, amigo, paizão e tio César pra sempre.
Poder mostrar o que é bom e que conheçam, comigo, aquilo que me tiraria o sono saber que se arriscam a fazer sozinhos.
Quero minha casa cheia de camas, pra que passem o fim de semana nela; e que toquemos violão e cantemos muito.
Quero saber de todos os medos, esclarecer as curiosidades, conhecer suas amizades e seus amores.
E, no dia em que o tio for velho, saber que sou parte de cada um de vocês.
Um dia, também, não mais terá o Nonno, nem a Nonna. Vocês serão toda a minha família.
E quando forem pais, aí vocês estarão ferrados, mulecada!!
Pois eu serei o tio-avô mais doido que existirá na face da terra!!
Fico feliz ao ver que todos têm interesse por algum seguimento artístico; e me sinto orgulhoso disso.
Embora a condição de artista, às vezes, pareça um tanto ingrata, jamais me oporia à escolha desse caminho.
Ser artista é um estado de espírito. Só quem é, compreende as delícias existentes nesse caminho imprevisto.
Amo todos. Sempre!
Tio César.

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PECECITO



PECECITO

Que delícia, que carinho!
Eu te conheci, Peixinho.
Os dias lentos se apressaram
E eu buscando o vão entre os minutos
Não dormi, mal quis comer
Pra te ter mais um bocado
Nesse calendário cronometrado.
Na semana atropelada,
De um ano que nasceu torto,
Fez o passado ainda mais morto
E as manhãs mais humoradas.
Entre brigadeiro, cuscuz, coxinha
Caldinho de feijão, couve e mandioquinha
Eu pensava nas coisas que, pra mim, são tão comuns,
Mas que levaria meses pra te fazer conhecer.
Me encantou redescobrir os velhos sabores
Através dos teus verdes olhos
Voltar pra casa com teu cheiro
E encontrar nos meus ombros
As mesmas sardas que revestem os teus.
Sei que a distancia é inimiga das paixões
Mas não a culpo.
Ela torna os momentos mais valiosos
E as lembranças mais carinhosas.

Caesar Pierini
São Paulo – 11/01/09

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Terra-Menina de Rara Beleza

E de repente a pequena cidade se esvazia.
Pessoas saindo, carros partindo, luzes se apagando e portas fechando.
Estar só, neste lugar quase-sacro, é estranho e bom; estranho, pois se estranha estar só quando não se é acostumado; e bom, pois pode-se sentir a vida, além de viver-la.
Gosto do egoísmo de acreditar que tudo aqui é meu. Gosto de saber que esse lugar sempre estará me esperando, talvez no escuro, e pensar que quando eu chego, o sol nasce, as pessoas despertam e o paraíso se mantém intacto, como da ultima vez.
Hoje caminhei por entre as pedras, no cume da mais íngreme rocha, daquela que faz a curva entre a costa e o penhasco, onde o vento se despede do tempo e migra rumo ao infinito.
Tendo o mundo a me acariciar os pêlos, com suas rajadas de vento, percebi que em tudo ressoa um som circular, presente em todas as coisas ao se manifestarem.
Há milênios, os orientais acreditam nesse som e buscam-no como forma de meditação e união com o universo.
Não quero propagar filosofias, quero apenas contar que é possível encontrar-lo em muitas coisas, como nas ondas, no vento, nas folhas das arvores ao balançarem, e nos ramos de capim quando se roçam.
Não sei se as coisas o produzem ou são produzidas por ele, tampouco sei o que fazer a partir do seu conhecimento, mas me agrada descobrir as pequenas sutilezas que constituem a vida.
Aqui, nesse meu paraíso, encontro todo o conforto necessário ao meu corpo e minha mente.
Há aqui, todas as belezas que mimam os olhos: praias, montanhas, rochas, matas, pássaros que cantam anunciando o dia, grilos que sibilam encantos para a lua, corpos que se banham de mar e de sol.
Da beira-mar, pode-se ver uma grande ilha e suas ilhotas, aonde os pássaros, de todos os cantos, fazem seus ninhos.
Aqui o sol nasce rosado e ao se por é laranja. Coisas nascem e morrem aqui.
Não nasci aqui, embora tenha crescido sob as mangueiras que permeiam estas estradas de terra, mas quero morrer neste lugar.
Quero que joguem minhas cinzas por entre os cantos deste recanto meu. E quero que venham felizes, ornados de flores e entoando cânticos.
Que me espalhem por aqui e acolá, por sobre as pedras e as ondas, entre as flores e os canteiros, sobre a grama e os coqueiros.
Quero me fixar a uma rocha, entrar em uma concha e, quem sabe, fazer-me, do pó, uma pérola.
Quero ser o pólem que semeia as flores e o sumo que brota dos cocos na copa dos coqueiros; ser bebido com sede, por bicho ou gente.
Mas, por ora, bem, vivo!
Só, na terra minha; terra menina de rara beleza,
Que, vívida, me apazigua.

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Ah, Formigas!

Existe bicho mais irritante que a formiga?
Todos tomam cuidado ao falar mal de cão ou de gato, pois sempre alguém acaba por se ofender.
As pessoas tratam seus bichos como se fossem crianças ou gente rica.
Eu mesmo tenho uma cadela que é uma filha; como se possível fosse.
Já que, com a formiga, ninguém se importa, eu digo:
Não suporto formigas!
Dizem que um elefante incomoda muita gente. Bom, um elefante nunca entrou no meu açucareiro. Agora, duzentas formigas entram diariamente.
As formigas invadem nossas casas, nossa mesa e os nossos armários.
Você compra um pão doce e é obrigado a comê-lo gelado; não pode escolher o lugar em que vai deixar, pois sua casa está cheia de formigas enxeridas que vieram sem serem convidadas.
E o pior, vão comer o seu pão!
Todas as tias-velhas têm uma receita infalível contra as formigas, potinhos com água, um giz mágico, cravos da índia...
Cravos-da-índia?
Eu moro no centro de São Paulo, porque eu teria cravo-da-índia em minha casa?
Aliás, além da minha avó, do padeiro e da Palmirinha, alguém tem cravo-da-índia em casa?
Vou comprar cravos-da-índia!
Sei que vendem no supermercado, se não estiver exposto na seção de condimentos, certamente estará ao lado do mata-baratas.

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O Diálogo de um Assalto à Mão Armada

Caesar Pierini
22/10/2008, São Sebastião - SP





Boa noite. –Despediu-se o apresentador do tele-jornal.

Paulo estava sentado sobre uma poltrona amarela, no canto direito do quarto alugado.

O rapaz de trinta e poucos anos, como gostava de dizer, tinha seus cabelos grisalhos penteados para trás. Recém chegara de uma assembléia dos operadores da bolsa de valores.

Logo cedo, na manhã seguinte, reiniciaria a maçante e prolixa reunião à qual o rapaz era obrigado a participar todos os anos.

Sentado com as pernas apoiadas sobre uma mesinha de centro que, paradoxalmente, se encontrava à direita do quarto e junto à poltrona, Paulo acendia um cigarro com a mão esquerda. Sua mão direita estava enfiada entre a almofada e o apoio de braço da poltrona amarela.

Um estrondo, vindo da direção da janela do quarto, fez com que Paulo derrubasse o cigarro no piso de granito.

A cortina começou a se mover desde a ponta até o centro. Cessado o movimento, uma mão abriu um dos lados da cortina, relevando um moço com uma meia-calça, bizarramente, enfiada na cabeça. Bizarramente, pois a meia-calça não havia sido cortada e sua ponta comprida estava caída por cima de um dos olhos do moço.

O moço puxou a ponta pendurada para o lado, como se penteasse a franja do cabelo, e ficou parado, olhando para Paulo.

Paulo, começando a entender o que acontecia, suspirou da mesma maneira que suspirava quando era abordado por um mórmon ao entrar em sua casa.

O “moço” passou a se qualificar “ladrão” quando, em voz baixa, gritou:

- Isso é um assalto!

Tirou a mochila das costas e pegou uma arma de fogo.

Paulo, ainda na mesma posição, perguntou:

- Posso acender um cigarro?

- Não! ...Sim, mas não se mova! – Respondeu o ladrão.

Paulo esticou o braço esquerdo, mantendo a mão direita onde estava. Pegou um cigarro, colocou na boca e acendeu. O ladrão permanecia em silêncio.

- E então... – Disse Paulo.

- Passa tudo! – Falou o ladrão.

- Minha carteira está embaixo do casaco. Pode levar, é tudo o que tenho.

- Eu disse tudo ou eu atiro! – Dizia o ladrão, enquanto apontava a arma, tentando não tremer.

Paulo não estava apavorado, pois viu que a mochila do rapaz tinha o emblema do hotel em que estava hospedado. Certamente se tratava de um funcionário oportunista e atrapalhado.

- É uma bela arma! Um revolver calibre trinta e oito, produzida no México. (dizia Paulo ao fingir ser um conhecedor de armas) – É uma pena que você não sabe atirar.

- Eu sei sim. Já matei um com essa arma. O espertinho tentou fugir, eu dei oito tiros nele. – respondeu o ladrão na tentativa de intimidar.

- É mentira!

- O senhor tá se achando muito engraçado, pois eu vou dar uns tiros em você, ai vamos ver se o senhor muda de idéia...

- Não mudo! Você está mentindo, rapaz. Essa arma não dá mais que seis disparos. Você nunca atirou na vida!

O ladrão foi pego pela contradição, moveu os olhos pra pensar numa resposta e disse:

- Não lembro quantos tiros, mas foram vários. E cala a boca, senão eu atiro...

Paulo riu, o que deixou o ladrão mais desconcertado.

- Você não pode atirar. Você nem tirou a trava de segurança.

O rapaz olhou por toda a arma, tremulo, procurando a tal trava. Não encontrou nada.

Paulo também estava nervoso ao blefar, porém estava acostumado a negociar ações de alto risco no mercado financeiro. Dissimular era um hábito rotineiro de Paulo.

- Então eu vou testar. (disse o ladrão) Você me passa tudo, carteira, dinheiro, cheque assinado e celular. Caso contrário eu atiro. Se você tiver sorte, a arma não dispara. Vai, levanta!

- Daqui eu não levanto!

- Você é louco? Porque não vai levantar?

- Porque eu não posso soltar o que tenho na mão direita. – Disse Paulo, mantendo a mão no vão da poltrona.

Os dois se olhavam nos olhos. Paulo inclinou a cabeça para baixo lentamente, fazendo com que seu olhar parecesse mais intimidador.

- E o que é que você tem ai? Pode passar também!

- Isso aqui eu não vou passar, você não vai saber usar. – Disse Paulo, em tom irônico.

- Passa logo!- Gritou o ladrão.

- Isso aqui... (disse Paulo enquanto fazia o movimento de engatilhar uma arma) ... eu só tiro com um propósito. E você não vai gostar se eu tirar a mão daqui.

- É uma arma?

- Talvez.

- Para de graça, tio. Se você me ameaçar eu atiro! É uma arma?

- Você não vai atirar, sua arma está com a trava. Se você se mexer eu uso o que tenho aqui na minha mão. Abaixe a arma, moleque! - Disse Paulo com firmeza.

O rapaz abaixou a arma.

- Coloque-a, devagar, ao lado da porta!

O rapaz assim o fez. Afastou-se lentamente da arma com as mãos levantadas e olhando fixamente para Paulo. Não pronunciou uma palavra.

Parado novamente junto à janela, o rapaz tentou pular para fora, mas, ao tentar encontrar a abertura que unia os dois lados da cortina, Paulo moveu um pouco o braço direito, enquanto disse:

- Aã! Pode parar!

- Não tio, (dizia o rapaz quase chorando) deixa eu ir embora!

- Vem aqui! (silêncio) Vem aqui! – Gritou Paulo.

O rapaz se aproximou ofegante e receoso.

- Acenda um cigarro pra mim!

- Eu não fumo... Desculpa, sim senhor!

O rapaz, que quase urinava, pegou o maço de cigarros e começou a chorar.

- O que foi? – Perguntou Paulo.

- Está vazio.

- Engole o choro!

Com o grito de Paulo, o rapaz derrubou o maço vazio no chão e calou-se.

- Agora vaza!

Rapidamente o jovem correu e pulou para fora do quarto, deixando pra trás sua mochila e a arma.

Paulo, então, ergueu a mão direita do vão. Apontou em direção à TV e usou o controle-remoto pra mudar de canal.

Paulo abriu a mochila do rapaz e descobriu que seu nome era Carlos, Carlos Nogueira dos Santos, o garçom do hotel.

Na mochila não havia drogas, nada ilícito que justificasse o assalto, apenas um crachá do hotel, livros de ficção e uma ordem de despejo em nome de Maria Aparecida Nogueira dos Santos.

Paulo preencheu um cheque no valor citado pela ordem de despejo e o colocou entre as coisas de Carlos. Entregou a mochila na recepção, alegando ter encontrado em um dos corredores.

Nas manhãs seguintes, daquela semana, Paulo recebeu o dobro de pães tostados em seu café da manhã.

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O HOMEM É AQUILO QUE COME...


O homem é aquilo que come...
(Caesar Pierini)


“O homem é aquilo que come”, dizia o postal com a foto de um esquimó.
Aquele postal esteve, por anos, pregado a parede de uma cantina.
Muitas pessoas viram a imagem impressa no cartão, mas nunca pararam pra ler a pequena frase.
Charles era uma exceção, sempre fora!
O filho feio da família, o menino estranho da escola, o que nunca namorou, nunca ouviram falar de amigos, mas o que mais lhe doía, era a feiúra.
Charles era feio, mas tão feio que nem a própria mãe era capaz de encontrar, nele, alguma beleza.
Dizem que até o branco dos olhos era feio, pois não era branco.
Não cortava os cabelos, pois não mudaria nada.
Não remendava suas meias, pois ninguém as veria.
Não lavava os dentes, pois não sorria.
Charles desenhava, desenhava bem e com isso se mantinha.
Uma família, que o viu menino, tinha pena da criatura e por isso comprava seus desenhos.
Num quase-ritual, a família passava pela porta da casa de Charles, enquanto caminhavam para a missa.
Os dois filhos tiravam nos dedos a sorte de se aventurarem entre o portão e a porta de entrada da casa.
Os pais paravam mudos, um dos meninos abria o portão de ferro e o outro entrava, batia na porta e passava um envelope com o dinheiro por baixo dela.
E tão silenciosamente quanto os demais, Charles passava, até as mãos do menino, um outro envelope.
E sempre em silêncio.
Lembro-me que, uma vez, a menor das crianças passou o envelope e tão logo o outro saiu, mostrando as pontas dos dedos de Charles pelo vão. No susto, o garoto gritou estridentemente, o mais moço riu e o domingo seguiu feliz.
O bairro do Bixiga era encantador!
O dono da cantina era pessoa tão boa, gente de alma caridosa, cristão. Tão cristão que alimentava Charles todas as noites, contanto que Charles esperasse do outro lado da rua, até que o último cliente saísse.
Numa das noites em que, lá, jantara, Charles viu o postal pregado na parede. E olhando para o prato de deliciosas nojeiras misturadas que lhe serviam, encontrou algum sentido na frase que dizia: “O homem é aquilo que come...”
Charles arrancou-o da parede e se foi.
Sua cama parecia menor naquela noite, o costume de dormir não lhe pesava os olhos.
A pequena frase lhe voltava à cabeça.
“O homem é aquilo que come...”
E o que ecoava, em poucos minutos, passara a gritar em um silencio perturbador.
“O homem é aquilo que come...”
Indo até o espelho, Charles se olhava e pela primeira vez incomodava-se com a sua figura.
A frase não parava de lhe atormentar.
- Dormir é impossível, andar talvez resolva – pensava Charles. E saiu.
Caminhava lentamente, não acostumado com a tal inquietude. Nunca sentiu falta da beleza, pois nunca a teve.
Andando por uma das estreitas e escuras ruas da vizinhança, Charles avistou um rapaz belo e moço.
A embriaguez não permitia que o rapaz percebesse a presença de Charles.
Além de Charles e o rapaz, uma moça, de vida indiscutível, passava pela rua.
A moça passou normalmente pelo embriagado, mas assustou-se ao passar por Charles.
Num tremor de raiva, Charles se aproximava do rapaz.
Próximo aos contornos do rapaz, ficava mais evidente sua feiúra, quanto mais se aproximava, mais grosseiros ficavam os rascunhos da sua face.
Charles olhava tentando encontrar alguma semelhança com o belo rapaz, mas não achava.
Seu nariz era tão repugnante e o do outro tão delicado.
E o rosto do rapaz passava a desaparecer sobre a visão de Charles, apenas o nariz se fazia presente.
O desejo tomava conta dos pensamentos de Charles. A vontade de ter, nele, o nariz que pertencia ao rapaz era grande e dolorosa.
A imagem do postal lhe veio à cabeça:
“O homem é aquilo que come...”
O esquimó que o ilustrava parecia consentir.
“O homem é aquilo que come...”
A boca de Charles se abria lentamente na direção da face do rapaz, enquanto sua mão tampava-lhe a boca.
E a comunhão se fez ato, entre o desejo e a fome.
Assustado, Charles acordou com o remorso de um pesadelo.
Foi lavar o rosto, para aliviar a tensão do sonho.
Os cabelos lhe cobriam o rosto, e a água, os unindo, levou-os até a nuca.
Seus olhos se arregalaram ao mirar o reflexo do espelho. Charles os lavou uma vez mais e outras tantas.
Seu nariz, naquela manhã, era igual ao do rapaz do sonho.
Um suspiro de espanto escondia um pequeno sorriso no canto esquerdo da boca.
A noite chegava, e com ela, a estreita cama e a frase... “O homem é aquilo que come...”
A certeza que caminhar resolvia, fazia com que Charles abrisse a porta.
Os pesadelos já não lhe apavoravam nas manhãs seguintes.
E o espelho se fazia querido.
As velhinhas rezavam pelas pobres pessoas, inexplicavelmente, mutiladas nas ultimas semanas.
Pessoas cochichavam, querendo saber quem era o belo jovem que mudara para a velha casa do portão de ferro.
O dono da cantina servia as sobras para os cães, que aguardavam ansiosos sobre os degraus da entrada.
– Afinal, cães não incomodam ninguém – Pensava o bom-homem.
A família, a mesma de outrora, ao passar pela casa exclamava:
- Que fim levara a pobre criatura??
Charles ao ouvir, sorria, escondendo um pequeno suspiro de espanto no canto esquerdo da boca.

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O DESEJO DE PHAEDRO

Phaedro era moço, e pensava e vivia como moço.
Morava só, na edícula de uma velha casa, de uma velha dona.
Revisava textos para um jornal quase falido e ganhava não mais do que necessitava para viver.
Suas únicas companhias eram: Margoth, a arquivista solteirona, que passava o dia cantando Mireille Mathieu, enquanto equilibrava seus grandes e quadrados óculos sobre a ponta do nariz; As pilhas e mais pilhas de papéis que forravam sua riscada mesa de mogno; e Greta, a velha dona da velha casa.
Findo o trabalho, e, após a alavanca do ponto ser puxada, Phaedro voltava para casa.
Sempre em passos largos, como se alguém o esperasse, caminhava com as mãos dentro de seu blazer cinza escuro.
Fumava um cigarro curto, em seis movimentos, e lançava-o precisamente no mesmo lugar, todos os dias, ao fazer a curva que o conduziria as escadas do metrô.
Com um movimento seco e impaciente, batia o bico do sapato no chão, esperando que a porta do trem abrisse.
Trinta e seis degraus acima, dezoito passos largos à esquerda e quarenta e três à direita, chegava em casa.
O ranger do velho portão, anunciava ao bule que começasse a apitar.
Sem que a campainha fosse tocada, Greta abria-lhe a porta diariamente.
Phaedro passava, pendurava seu blazer e sentava sobre a poltrona de veludo bordô à direta da sala.
Phaedro elegia o sabor do chá, dentre os, ali, existentes, e colocava-o na vazia xícara de porcelana pintada.
Greta despejava a água, olhando nos olhos do rapaz, que, ao mover a cabeça, confirmava a quantia desejada.
Então, a velha puxava seus ruivos e grisalhos cabelos até a nuca e prendia-os com apenas três voltas.
Sentada numa cadeira de espaldar alto e entalhada, acendia um longo e fino cigarro.
Fumava observando os lábios do rapaz se contraírem ao sugar pequenos goles da escaldante bebida.
Silenciosamente, retirava as xícaras e permanecia ausente enquanto o jovem, por sua vez, fumava.
Phaedro não sabia nada a respeito de Greta, apenas que era alemã, pois o disseram ao alugar a edícula.
Nunca ouviu sua voz, nem ruído algum produzido pela velha.
Somente ouvia uma melancólica e curta melodia, provinda de um porta-jóias ou caixinha de música, antes que as luzes da janela do quarto de Greta se apagassem.
As fotos espalhadas pela sala de Greta, lhe causavam curiosidade, mas nunca às apontou ou perguntou algo.
Gostava de imaginar quem seria aquela calada velha, que esteve em várias partes do mundo, e como, por fim, parou ali.
Sempre só, nas fotos, e nunca olhando diretamente para câmera, Greta parecia compor parte de cada lugar em que esteve.
Suas estranhezas se completavam e a convivência se satisfazia desses poucos minutos.
Em seu quarto, Phaedro tirava os sapatos, deitava e lia.
Lia muito e sempre.
Nunca saberemos o que lia, pois todos os seus livros eram encapados em papel pardo.
Penso que eram pardos para não distrair-se do conteúdo das histórias.
Mas apenas penso e não mais que isso.
Phaedro fechava as cortinas ao despir-se.
Motivo pelo qual não descrevo seus contornos.
Seus prazeres eram distintos aos dos outros; eram próprios.
Queria conhecer e decifrar o próprio corpo.
Era só e não, pois buscava em si a permuta do prazer.
Amava suas mãos e os pelos que as revestiam.
Experimentava, sem pressa, cada um de seus agrados.
Phaedro não buscava companhia, porém, a casualidade lhe provia alguns encontros, por palavras não ditas em olhares coniventes.
Não encontrava prazer no próximo, mas no seu prazer, refletido em outros olhos.
Não caberia julgar-lo, pois todos nós sabemos o que intentamos em pensamento sem, nunca, declarar.
Mas Phaedro o fez.
Em um encontro com a, propositadamente, afastada família, questionaram-lhe
sobre seu modo de viver e se pretendia casar-se ou não.
Respostas não saciavam a curiosidade, da qual todos se alimentavam, sobre a extensa mesa.
E enquanto Phaedro, de cabeça baixa, escrevia em um guardanapo, perguntaram-lhe o que desejava da vida.
O rapaz levantou, deixando sobre mesa o papel que dizia:

...Trago no peito um desejo intenso
De ver, pelos olhos meus, o corpo que me pertence
No seu-meu momento mais íntimo de prazer.
Eu, de mim para outrem, que seja eu e não, ao mesmo tempo.
Descobrindo que sabores possuo quando minha pele é espoliada,
Em quais recôncavos se escondem minhas delícias.
E quão cálidas, pulsam minhas saliências.
Quero sentir com que força jorram meus fluidos
E com que rapidez os pelos se eriçam, ao toque dos dedos meus;
Conhecer o calor da minha língua sobre toda sinuosa ou estreita curva
E a fome com a qual, minha boca, sugaria a fina pele que cinge os pescoços.
Quero saber quantos graus meus olhos se elevam nos últimos tremores
E o cheiro que meus poros exalam, após o derradeiro suspiro...


Caesar Pierini 10/10/08

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PEFIRO O PREÇO DE SER PASSIONAL

Ai, ânsia visceral que me consome e alimenta.
Seria, a vida, mais sublime e teria o mesmo sabor,
sem a intensidade em que vivo?
A superficialidade se apresenta, a mim,
tão monótona.
Prefiro o preço de ser passional.
Na veemência de suas delícias e escandalosas dores.
Nunca pertenci a bandos e nem me instiga tal vínculo.
Gosto de gente; de perto, a fundo e intimamente.
Não me interessa toda a gente.
Admiro os geniosos, os temperamentais,
os viscerais e contestantes.
Gente morna não me apetece, gosto das opiniões e
das divergências.
Despoticamente calmo, guardo para quem mereça minha impetuosidade, petulância e insolência.
E, na mesma proporção, o afeto, zelo e admiração.
Respeito todos, de longe.
Sempre me intitularam “melhor amigo”; gosto,
pela intimidade e não por exclusividade.
Exclusividade, só a do sexo, enquanto for possível.
Minha altura é estratégica, sou da miniatura da humildade, se tenho apreço;
E monstruosamente grande, quando deprecio ou invadem-me.
Mas, indiscutivelmente, educado.
Aceito a limitação alheia, porém, não a burrice.
Abomino o hipócrita, o falso-modesto e a distorção da autocrítica.
Gente em “busca da elevação espiritual” deveria permanecer calada.
E gente que cala deveria falar, mesmo que doa.




Caesar Pierini

02:47 a.m.


02:47 a.m
Hora de estar dormindo!
Por quê?
Acaso tenho hora para acordar?
Se não tenho hora para acordar, porque teria para dormir?
Onde se esconde, hábito castrador, que teima em ecoar no imperativo?
Deixe-me em paz e saia, já, da minha cabeça!
Durmo, tão somente, quando o sono me ordenar.
E, de igual modo, quando tiver fome, apenas comerei o que quiser.
Lembro-me de ter ido morar só; não de ter trazido para debaixo do teto meu, tal consciência-manipuladora-paternal.

Quero parecer o mais próximo daquilo que sou.
Todos temos nossas personas, e eu as respeito, até determinado ponto.
Tenho medo das pessoas que fazem questão de afirmar sua persona.
Bom, para quem não sabe, persona é identidade que criamos; o modo ao qual gostaríamos de ser vistos.
Não necessariamente o que somos, e na maioria das vezes nem parecido, mas aquilo que gostaríamos que alguém ou um todo acreditasse.
Não gosto de gente que fala alto, que conta suas floridas vantagens em lugares públicos...
Hoje fui a um bar.
Uma moça, até bonita, sentada em uma mesa próxima, gritava que seu trabalho era importante, porém mantendo um tom de naturalidade...
Penso ser esta, quando conscienciosa, a maior auto-flagelação praticável.
Já que ter um trabalho importante era tão natural e comum para ela, qual a necessidade de anunciar para todo o bar? Talvez seja isso o que de melhor ela tem, ou seja, nada.

Muitas vezes acho-me estranho, pois quero ser o que sou, e quem quiser que goste de mim.
Quero falar o que penso e o que sinto, na hora que sinto ou penso.
Quero alguém que fale e que pense e que viva o que sente.
De que vale ter alguém, não pelo que sou, mas pelo que quero parecer?
Já se perguntaram, se a forma que se apresentam e que se relacionam parece com o que vocês realmente são?
Para mim, o maior amor, é aquele que permanece após todas as coisas feias serem expostas.
É quando enxergamos, nua, a pessoa que deita ao nosso lado na cama.
E temos a certeza de que, embora tudo, amamos.
Durmo só, mas durmo com o que sou.
Durmo só, mas não durmo com o que não é.
E boa noite!

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