O Destino de Luiza

Já era noite, as luzes da cidade esquecida pelo mundo estavam apagadas.
Ruas escuras, praças vazias, apenas a entrada da igreja estava iluminada por uma lâmpada velha e amarelada.
Fazia uma semana que Luiza se mudara para lá.
Recebeu uma bolsa de estudos do governo, afim de que fosse para a tal cidade pesquisar o índice de analfabetismo local. Luiza era professora e, em pouco tempo, receberia o título de mestre.
Chegara às pressas, muito tarde e cansada. Na manhã seguinte iniciou o novo ofício, então, passado uma semana de intenso trabalho, esta seria sua primeira véspera de folga.
Luiza procurou saber aonde as pessoas iam quando buscavam diversão, como não conhecia nada e nem ninguém, achou que seria uma boa maneira de fazer novas amizades.
As ruas, extensas e silenciosas, não conduziam ser algum que pudesse lhe informar. Luiza decidiu caminhar e encontrar um lugar agradável para tomar algo.
Parecia-lhe curioso, pois pouco passava das oito horas e todas as casas estavam fechadas, sem ruídos de gente ou aparelhos domésticos. Era como se a cidade inteira estivesse dormindo.
Passando mais adiante, Luiza viu um casebre de madeira com um lampião aceso. Pela estrutura da entrada notava-se que não era uma residência e sim um comercio, uma mercearia.
Não era o que Luiza pretendia encontrar, mas, pela falta de opção, resolveu entrar.
Luiza abriu devagar a portinhola de madeira que separava a rua da varanda da mercearia. Nisso, alguém passou pela frente do lampião, mostrando-se apenas pela silueta de sua sombra. Era uma velha.
A velha, ao ver Luiza se aproximando, parou. Seus ombros se ergueram e os seus braços arquearam rapidamente, deixando os dedos curvados e duros.
A velha se assustara, como um gato ao virar a esquina e dar de cara com um cão.
- Está fechado. Saia! – Gritou a velha.
Luiza tentou explicar-se, mas antes que pronunciasse uma única palavra, a porta do casebre foi batida com força e a luz que iluminava seu interior se apagou.
Mesmo conhecendo os hábitos da gente velha e interiorana, Luiza irritou-se com a grosseria da mal-educada velha. E em resposta a estupidez com que foi recebida, bateu a portinhola com igual força. Essa, por sua vez, se rompeu e foi ao chão.
Luiza, já arrependida e envergonhada, ficou parada e olhando sem saber o que fazer. Como ninguém saíra de dentro do casebre, foi-se embora.
Chegou em casa desanimada e, sem fome, comeu um lanche sobre uma das caixas de sua mudança, que lhe serviu de mesa, e dormiu.
Na manhã seguinte acordou cedo, tomou um banho e um café forte. Aproveitou seu dia de folga para passear e conhecer a cidade da qual, mesmo sem sentir, já fazia parte.
Às sete horas da manhã, o sino da igreja batia, anunciando que começaria a missa. Luiza não praticava a religião, embora, com alguma freqüência, acompanhasse sua mãe nas missas de domingo. O soar do sino se fez tão materno que conduziu Luiza ao interior da igreja.
A igreja estava cheia, todas as pessoas sentadas, banhadas e penteadas. No altar se via duas crianças caladas, nenhuma imagem sacra ou música.
Todos se levantaram quando um jovem senhor entrou pelos fundos. O homem se apresentou como Cornélius, era o diácono da cidade que não possuía padre.
Cornélius tinha o olhar penetrante e frio, celebrou uma missa curta e bem falada.
Ao término da celebração, pediu a atenção de todos e disse:
- Senhores, é com profundo pesar que pronuncio essas palavras. Nós moradores desta pacata cidade, não estamos acostumados a conviver com os atos de vandalismo praticado nas grandes sociedades, porém ontem, uma gentil servidora de Deus, Dona Dulce, teve o infortúnio de perder o portão de sua mercearia, devido à maldade que habita o coração de um recente morador da nossa cidade...
Nesse instante, Luiza já estava ruborizada. Pensou em explicar-se, mas logo se deteve ao ver que Cornélius a olhava por cima dos óculos, enquanto seguia falando:
- ...Espero que, com a justiça suprema, esse ato maléfico possa ser compensado; e que se afaste de nós o ser que se opõe aos nossos simples e humildes costumes. Vamos em paz e que o Senhor nos acompanhe!
Todos se levantaram, inclusive Luiza que, ainda conturbada, tentava manter uma aparência serena.
Muitas pessoas olhavam para ela com ar de reprovação, sobretudo as mulheres.
Seria possível que todos já soubessem do ocorrido? As notícias se espalham rapidamente nas cidades pequenas, mas aquilo foi ontem, quando todos, seguramente, já dormiam! – Pensou Luiza.
Triste, pela maneira que começara sua nova jornada, Luiza retornou a casa. Tinha muito que arrumar e isso a faria esquecer o aborrecimento.
Mas para surpresa de Luiza, seu aborrecimento apenas começava. Ao chegar, avistou seu portão quebrado e lançado sobre um canteiro. Nas paredes de sua casa haviam escrito insultos e ameaças.
Com a fúria a lhe saltar os olhos, Luiza gritou:
- Esta é a cidade pacata que não conhece o vandalismo?
Ninguém saiu na rua para ver o que acontecia, nem mesmo uma janela foi aberta. Era como se todos já soubessem o que havia acontecido e concordassem.
Luiza derramou algumas lágrimas enquanto recolhia o portão e a sujeira que deixaram em sua porta. Lembrou de sua mãe e sentiu-se abandonada pelo afeto do mundo.
Escreveu uma carta para a mãe, pois a telefonia ainda não havia chegado àquela cidade, relatando tudo que lhe ocorrera. Selou a carta e colocou-a na caixinha do correio que se encontrava ao lado da porta de sua casa.
Amanhece o novo dia e com ele renasce o entusiasmo de Luiza. Era o primeiro dia que teria contato com as crianças da cidade. Gostava de trabalhar com crianças, aliás, era o que mais gostava de fazer.
Ainda muito cedo, Luiza chegou em uma instituição que educava as crianças carentes da região. Gostou de ver que tudo era limpo e organizado.
Passou em todas as classes distribuindo um questionário para que as crianças respondessem. No fim da manhã, recolheu os envelopes contendo todos os questionários respondidos.
Seu trabalho não acabava ai. Após receber o material, devia analisá-lo. Por isso Luiza trabalhava apenas duas vezes por semana fora de casa.
As crianças não lhe demonstraram nenhum afeto, coisa rara se tratando de crianças, mas isso não a incomodou.
Chegando em casa, abriu os envelopes e viu que nada haviam escrito na maioria dos questionários, nem mesmo os próprios nomes.
Ficou espantada, pois pela faixa etária, os alunos deveriam escrever bem.
Folheou, um por um, para se certificar de que não havia um engano, até que encontrou um deles que continha algo escrito.
Sobre o papel branco, uma frase em cor vermelha dizia:
- Vá pro inferno, vagabunda! –
A frase não a espantara, já havia trabalhado em uma instituição de recuperação para jovens infratores. Isso, lá, era até elogio. O que lhe preocupou foi que todos os outros alunos não sabiam escrever.
Luiza fez um relatório e enviou, pelo correio, para o ministério, na capital.
O tempo passava e Luiza não recebia resposta alguma. As outras escolas e instituições apresentavam o mesmo problema. Ao questionar seus coordenadores, sempre obtinha a mesma resposta:
- Estamos cientes de uma pequena dificuldade de alguns alunos, porém, já estamos tomando as providências necessárias.
E insistiam para que Luiza desse o trabalho por encerrado.
Fazia três meses que estava ali e o ministério não lhe respondia; tampouco sua mãe escrevia demonstrando qualquer interesse pela filha.
Na ocasião, aproxima-se o dia de finados, data a qual Luiza sempre acompanhava a mãe em uma visita ao túmulo do falecido pai. Por não estar presente e não poder compartir as dores da lembrança naquele ano, Luisa escreveu para a mãe contando o quanto sentia sua falta e que gostaria muito de, como sempre fez, acompanhá-la.
Ao colocar esta carta na caixa do correio, entendeu o motivo pelo qual sua mãe não respondera a primeira carta; e também não o ministério. As primeiras cartas ainda estavam ali, não haviam sido recolhidas pelo carteiro.
Cansada das condições da precária cidade, recolheu suas correspondências e se dirigiu até a sede do correio central.
O edifício da empresa ficava do outro lado da cidade, o que rendeu a moça meia hora de caminhada.
O silêncio começava a incomodar, a acomodação das pessoas lhe irritava.
Como ninguém busca providencias para o pregresso dessa cidade? – Pensava.
Quando chegou ao correio central quase urrou de raiva. Havia uma placa grafada:
“Estamos em Greve!”
Antes que o descontrole tomasse conta do seu corpo, Luiza se virou para o sentido em que veio, deu alguns passos, parou e voltou a ler a placa.
“Estamos em Greve!”
E um pouco mais abaixo:
21/10/1967
Por um momento Luiza pensou estar enganada, mas não estava.
A placa indicava que a greve havia começado há quarenta anos. Seria possível?
- Provavelmente o prédio do correio não era mais o mesmo. Preciso me informar. – Pensou.
O dia começava a escurecer, Luiza voltava para casa e, como de costume e por não conhecer muito bem a cidade, elegia sempre novos caminhos.
Algumas quadras adiante, Luiza se deparou com um extenso muro que cercava toda uma quadra. Seus portões eram de ferro e estavam abertos. A grama que revestia o chão era verde e convidativa. Luiza descalçou os pés e adentrou o belo parque nunca antes visto.
A grama foi se convertendo em pequenos caminhos e vielas, que convergiam em um jardim com uma fonte d’água.
Após passar pela fonte, Luiza se deu conta de que não se tratava de um parque e sim de um cemitério.
Caminhou tranquilamente por entre as lápides e covas.
Inesperadamente, viu o diácono da cidade, Cornélius, que, impaciente, aparentava estar esperando alguém.
Com o intuito de não cruzar com Cornélius, Luiza precipitou em esconder-se atrás de uma lápide, até que este fosse embora.
Mas Cornélius não foi. Ficou parado por algum tempo, até que alguém se aproximou. Era Dulce, a velha.
Após Dulce, várias pessoas começaram a chegar ao encontro dos que ali estavam.
De repente, formou-se um grupo muito grande de pessoas, as crianças das escolas, seus coordenadores, as pessoas que estavam na missa, entre outras. Parecia que toda a cidade estava presente para um encontro, do qual, somente Luiza não havia sido convidada.
Estranhamente, Cornélius começou a falar em latim com aquela gente. As crianças, que não sabiam escrever, respondiam em um latim perfeito.
Luiza fora capaz de escutar pouca coisa do que estava sendo dito no discurso de Cornélius, mas ouviu perfeitamente quando pronunciaram seu nome de forma agressiva.
Luiza não entendia o que toda aquela gente fazia reunida ali, não entendia porque as crianças falavam como adultos em um latim melhor que o seu.
Não se tratava de uma comemoração, pois os semblantes não eram festivos.
Talvez um enterro de alguém muito popular na cidade, pensou Luiza, embora não soubesse por que pronunciavam seu nome.
Cornélius proferiu uma frase que soara no imperativo, e assim, todos o seguiram em direção a um grande prédio localizado na lateral do cemitério.
Assim que todos partiram, Luiza aproximou-se de onde estavam para ver a quem pertencia o tumulo sobre qual Cornélius discursava.
A lápide estava suja e foi necessário passar a mão para que pudesse ser lido o seu nome.
Na pedra negra, de granito, estava gravada a seguinte descrição:
“CORNÉLIUS GRACO”
22/01/1925 - 01/12/1967
Luiza releu, com esperanças de que seus olhos estivessem enganados, mas, ao fazer, nada mudou. Era realmente o túmulo de Cornélius.
Também a pequena fotografia, já desbotada pelo tempo, confirmava que ali jazia o diácono da cidade.
- Será uma brincadeira de mau gosto? – Pensou – Não pode ser! O humor não parecia ser uma característica que definia Cornélius, mas se Cornélius está morto, quem era o homem que se apresentou como diácono usando seu nome?
Atordoada pelos pensamentos, Luiza caminhou um pouco mais, tentando encontrar alguma razão que justificasse a contradição dos fatos.
Parou em frente à outra lápide e, para seu espanto, leu-a. O túmulo pertencia à velha Dulce. Seu retrato também estava lá.
Sem entender coisa alguma, Luiza começou a sentir o medo tomando conta do seu corpo.
Luiza era quase cética, quando se tratava se assuntos metafísicos. Seu raciocínio intelectual e cientifico não lhe permitia acreditar em “bobeiras” (como costumava dizer), mas, diante dessas evidências, Luiza não sabia o que pensar.
A curiosidade fez com que ela especulasse por outros túmulos.
Em pequenos retratos, que estavam nos jazigos espalhados ao seu redor, Luiza podia reconhecer o rosto de crianças que vira nas escolas.
Apavorada, Luiza buscou a saída mais próxima e, sem perceber, deixou para trás seus sapatos.
Ao chegar até o portão por onde entrou, encontrou-o fechado. Os muros eram muitos altos para que alguém pudesse pular. Luiza seria obrigada a passar ao lado do prédio em que as pessoas estavam.
Tendo notado que se esquecera dos sapatos, Luiza, ao invés de deixar-los, decidiu que, antes de sair do cemitério, voltaria para pegá-los.
Não se pode dizer que Luiza era uma pessoa burra, pelo contrário, era bem inteligente, porém não era esperta. Era uma grande detentora de conhecimento, mas lhe faltava uma pitada de filosofia, de malandragem; e isso sempre lhe atrapalhava em circunstâncias das quais o raciocínio não pode se basear na razão.
Fazendo o percurso ao contrário, Luiza chegou onde estava antes. Seus sapatos não estavam ali. Olhou por alguns cantos e não os encontrou.
O medo de ser descoberta fez com que Luiza abandonasse os sapatos, onde quer que estivessem.
Passou silenciosamente ao lado do prédio, para que ninguém a ouvisse.
Tentou prender a respiração ofegante e ruidosa o mais que pôde.
Seu coração batia acelerado ao passar próximo das janelas.
Sem que quisesse e já fazendo, Luiza olhou, por um dos vitrais, o que se passava dentro do lugar.
Viu Cornélius ministrando uma espécie de rito. O homem estava em um pequeno altar, de frente para todas as outras pessoas.
Havia uma mesa e um animal vivo sobre ela. Era um cordeiro.
O bicho berrava e as pessoas iam até o altar, uma de cada vez, receber das mãos de Cornélius algo que lhes era colocado dentro da boca.
Após uma das pessoas sair da frente da mesa, e antes que a próxima chegasse, Luiza pode ver melhor o que acontecia.
Cornélius cortava um pedaço de carne do animal, ainda vivo, e colava-o na boca de cada um, ali presente.
A visão de Luiza ficou turva com a cena que presenciou. Ainda mais apavorada que antes, correu desesperadamente até a saída do cemitério.
A cidade, já vazia no início da noite, lhe pareceu macabra. Antes, a cidade aparentava faltar cuidados, agora parecia faltar vida.
Com os pés sangrando, Luiza correu até a estrada que passava perto dali.
Desesperada, não pensou em pegar nada, antes de partir; tampouco sentia a dor dos seus pés, enquanto deixava as lascas de sua pele, por sobre o asfalto.
Após correr por muitos metros, na estrada, Luiza avistou uma velha caminhonete se aproximando.
A moça movia os braços, freneticamente, na tentativa muda de implorar uma carona.
A caminhonete parou.
Luiza entrou, aos prantos, e pediu para que o motorista a levasse para qualquer lugar, contanto que fosse longe dali.
O motorista era um senhor branco, de meia idade, que fumava um cigarro de palha enquanto dirigia.
O homem, sem perguntar nada, tentou acalmá-la e ligou o rádio.
A moça parou de chorar, mas seus soluços eram constantes. Os olhos de Luiza, arregalados, olhavam para todos os lados da estrada.
O homem seguiu calado, pela estrada, por quase uma hora.
Luiza, já mais tranqüila, disse que desceria em alguma rodoviária e que, de lá, ligaria para a mãe.
A caminhonete foi diminuindo a velocidade até parar em frente a uma taberna à beira da estrada.
- Onde estamos? – Perguntou Luiza, com voz branda.
- Estamos perto da rodoviária. Preciso pegar uma encomenda aqui. Eu já volto. – Disse o homem.
Luiza sentindo-se aliviada, por estar a caminho de casa, relaxou a cabeça sobre o encosto do assento.
Pela primeira vez, desde então, sentiu a dor em seus pés. Luiza procurou o botão que acendia a luz da cabine e ligou-o para poder enxergar em que estado se encontravam seus pés.
Com a fraca iluminação da cabine, Luiza pode ver seus pés machucados e, mais ao lado e pouco mais embaixo do painel, seus sapatos.
Os sapatos, que Luiza perdera no cemitério, estavam ali.
Luiza começou a tremer novamente. Seu corpo suava frio e formigava.
Rapidamente Luiza saiu da caminhonete e correu o máximo que pôde.
Quando já estava distante, ouviu o som do ronco do motor ao dar partida. As luzes do automóvel se acenderam e se faziam mais fortes, conforme se aproximava.
Luiza corria com toda a força que lhe restara, engasgava-se com o próprio choro. Suas lágrimas lhe embaçavam a vista.
A caminhonete se aproximava cada vez mais rápido e Luiza começava a perder sua força.
As luzes dos faróis aumentavam e o ruído também, a caminhonete estava a poucos metros de Luiza.
Com um último resquício de força, Luiza gritou e caiu desmaiada sobre o chão da estrada.
Não mais ouviram notícias de Luiza.

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Terra-Menina de Rara Beleza

E de repente a pequena cidade se esvazia.
Pessoas saindo, carros partindo, luzes se apagando e portas fechando.
Estar só, neste lugar quase-sacro, é estranho e bom; estranho, pois se estranha estar só quando não se é acostumado; e bom, pois pode-se sentir a vida, além de viver-la.
Gosto do egoísmo de acreditar que tudo aqui é meu. Gosto de saber que esse lugar sempre estará me esperando, talvez no escuro, e pensar que quando eu chego, o sol nasce, as pessoas despertam e o paraíso se mantém intacto, como da ultima vez.
Hoje caminhei por entre as pedras, no cume da mais íngreme rocha, daquela que faz a curva entre a costa e o penhasco, onde o vento se despede do tempo e migra rumo ao infinito.
Tendo o mundo a me acariciar os pêlos, com suas rajadas de vento, percebi que em tudo ressoa um som circular, presente em todas as coisas ao se manifestarem.
Há milênios, os orientais acreditam nesse som e buscam-no como forma de meditação e união com o universo.
Não quero propagar filosofias, quero apenas contar que é possível encontrar-lo em muitas coisas, como nas ondas, no vento, nas folhas das arvores ao balançarem, e nos ramos de capim quando se roçam.
Não sei se as coisas o produzem ou são produzidas por ele, tampouco sei o que fazer a partir do seu conhecimento, mas me agrada descobrir as pequenas sutilezas que constituem a vida.
Aqui, nesse meu paraíso, encontro todo o conforto necessário ao meu corpo e minha mente.
Há aqui, todas as belezas que mimam os olhos: praias, montanhas, rochas, matas, pássaros que cantam anunciando o dia, grilos que sibilam encantos para a lua, corpos que se banham de mar e de sol.
Da beira-mar, pode-se ver uma grande ilha e suas ilhotas, aonde os pássaros, de todos os cantos, fazem seus ninhos.
Aqui o sol nasce rosado e ao se por é laranja. Coisas nascem e morrem aqui.
Não nasci aqui, embora tenha crescido sob as mangueiras que permeiam estas estradas de terra, mas quero morrer neste lugar.
Quero que joguem minhas cinzas por entre os cantos deste recanto meu. E quero que venham felizes, ornados de flores e entoando cânticos.
Que me espalhem por aqui e acolá, por sobre as pedras e as ondas, entre as flores e os canteiros, sobre a grama e os coqueiros.
Quero me fixar a uma rocha, entrar em uma concha e, quem sabe, fazer-me, do pó, uma pérola.
Quero ser o pólem que semeia as flores e o sumo que brota dos cocos na copa dos coqueiros; ser bebido com sede, por bicho ou gente.
Mas, por ora, bem, vivo!
Só, na terra minha; terra menina de rara beleza,
Que, vívida, me apazigua.

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Ah, Formigas!

Existe bicho mais irritante que a formiga?
Todos tomam cuidado ao falar mal de cão ou de gato, pois sempre alguém acaba por se ofender.
As pessoas tratam seus bichos como se fossem crianças ou gente rica.
Eu mesmo tenho uma cadela que é uma filha; como se possível fosse.
Já que, com a formiga, ninguém se importa, eu digo:
Não suporto formigas!
Dizem que um elefante incomoda muita gente. Bom, um elefante nunca entrou no meu açucareiro. Agora, duzentas formigas entram diariamente.
As formigas invadem nossas casas, nossa mesa e os nossos armários.
Você compra um pão doce e é obrigado a comê-lo gelado; não pode escolher o lugar em que vai deixar, pois sua casa está cheia de formigas enxeridas que vieram sem serem convidadas.
E o pior, vão comer o seu pão!
Todas as tias-velhas têm uma receita infalível contra as formigas, potinhos com água, um giz mágico, cravos da índia...
Cravos-da-índia?
Eu moro no centro de São Paulo, porque eu teria cravo-da-índia em minha casa?
Aliás, além da minha avó, do padeiro e da Palmirinha, alguém tem cravo-da-índia em casa?
Vou comprar cravos-da-índia!
Sei que vendem no supermercado, se não estiver exposto na seção de condimentos, certamente estará ao lado do mata-baratas.

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O Diálogo de um Assalto à Mão Armada

Caesar Pierini
22/10/2008, São Sebastião - SP





Boa noite. –Despediu-se o apresentador do tele-jornal.

Paulo estava sentado sobre uma poltrona amarela, no canto direito do quarto alugado.

O rapaz de trinta e poucos anos, como gostava de dizer, tinha seus cabelos grisalhos penteados para trás. Recém chegara de uma assembléia dos operadores da bolsa de valores.

Logo cedo, na manhã seguinte, reiniciaria a maçante e prolixa reunião à qual o rapaz era obrigado a participar todos os anos.

Sentado com as pernas apoiadas sobre uma mesinha de centro que, paradoxalmente, se encontrava à direita do quarto e junto à poltrona, Paulo acendia um cigarro com a mão esquerda. Sua mão direita estava enfiada entre a almofada e o apoio de braço da poltrona amarela.

Um estrondo, vindo da direção da janela do quarto, fez com que Paulo derrubasse o cigarro no piso de granito.

A cortina começou a se mover desde a ponta até o centro. Cessado o movimento, uma mão abriu um dos lados da cortina, relevando um moço com uma meia-calça, bizarramente, enfiada na cabeça. Bizarramente, pois a meia-calça não havia sido cortada e sua ponta comprida estava caída por cima de um dos olhos do moço.

O moço puxou a ponta pendurada para o lado, como se penteasse a franja do cabelo, e ficou parado, olhando para Paulo.

Paulo, começando a entender o que acontecia, suspirou da mesma maneira que suspirava quando era abordado por um mórmon ao entrar em sua casa.

O “moço” passou a se qualificar “ladrão” quando, em voz baixa, gritou:

- Isso é um assalto!

Tirou a mochila das costas e pegou uma arma de fogo.

Paulo, ainda na mesma posição, perguntou:

- Posso acender um cigarro?

- Não! ...Sim, mas não se mova! – Respondeu o ladrão.

Paulo esticou o braço esquerdo, mantendo a mão direita onde estava. Pegou um cigarro, colocou na boca e acendeu. O ladrão permanecia em silêncio.

- E então... – Disse Paulo.

- Passa tudo! – Falou o ladrão.

- Minha carteira está embaixo do casaco. Pode levar, é tudo o que tenho.

- Eu disse tudo ou eu atiro! – Dizia o ladrão, enquanto apontava a arma, tentando não tremer.

Paulo não estava apavorado, pois viu que a mochila do rapaz tinha o emblema do hotel em que estava hospedado. Certamente se tratava de um funcionário oportunista e atrapalhado.

- É uma bela arma! Um revolver calibre trinta e oito, produzida no México. (dizia Paulo ao fingir ser um conhecedor de armas) – É uma pena que você não sabe atirar.

- Eu sei sim. Já matei um com essa arma. O espertinho tentou fugir, eu dei oito tiros nele. – respondeu o ladrão na tentativa de intimidar.

- É mentira!

- O senhor tá se achando muito engraçado, pois eu vou dar uns tiros em você, ai vamos ver se o senhor muda de idéia...

- Não mudo! Você está mentindo, rapaz. Essa arma não dá mais que seis disparos. Você nunca atirou na vida!

O ladrão foi pego pela contradição, moveu os olhos pra pensar numa resposta e disse:

- Não lembro quantos tiros, mas foram vários. E cala a boca, senão eu atiro...

Paulo riu, o que deixou o ladrão mais desconcertado.

- Você não pode atirar. Você nem tirou a trava de segurança.

O rapaz olhou por toda a arma, tremulo, procurando a tal trava. Não encontrou nada.

Paulo também estava nervoso ao blefar, porém estava acostumado a negociar ações de alto risco no mercado financeiro. Dissimular era um hábito rotineiro de Paulo.

- Então eu vou testar. (disse o ladrão) Você me passa tudo, carteira, dinheiro, cheque assinado e celular. Caso contrário eu atiro. Se você tiver sorte, a arma não dispara. Vai, levanta!

- Daqui eu não levanto!

- Você é louco? Porque não vai levantar?

- Porque eu não posso soltar o que tenho na mão direita. – Disse Paulo, mantendo a mão no vão da poltrona.

Os dois se olhavam nos olhos. Paulo inclinou a cabeça para baixo lentamente, fazendo com que seu olhar parecesse mais intimidador.

- E o que é que você tem ai? Pode passar também!

- Isso aqui eu não vou passar, você não vai saber usar. – Disse Paulo, em tom irônico.

- Passa logo!- Gritou o ladrão.

- Isso aqui... (disse Paulo enquanto fazia o movimento de engatilhar uma arma) ... eu só tiro com um propósito. E você não vai gostar se eu tirar a mão daqui.

- É uma arma?

- Talvez.

- Para de graça, tio. Se você me ameaçar eu atiro! É uma arma?

- Você não vai atirar, sua arma está com a trava. Se você se mexer eu uso o que tenho aqui na minha mão. Abaixe a arma, moleque! - Disse Paulo com firmeza.

O rapaz abaixou a arma.

- Coloque-a, devagar, ao lado da porta!

O rapaz assim o fez. Afastou-se lentamente da arma com as mãos levantadas e olhando fixamente para Paulo. Não pronunciou uma palavra.

Parado novamente junto à janela, o rapaz tentou pular para fora, mas, ao tentar encontrar a abertura que unia os dois lados da cortina, Paulo moveu um pouco o braço direito, enquanto disse:

- Aã! Pode parar!

- Não tio, (dizia o rapaz quase chorando) deixa eu ir embora!

- Vem aqui! (silêncio) Vem aqui! – Gritou Paulo.

O rapaz se aproximou ofegante e receoso.

- Acenda um cigarro pra mim!

- Eu não fumo... Desculpa, sim senhor!

O rapaz, que quase urinava, pegou o maço de cigarros e começou a chorar.

- O que foi? – Perguntou Paulo.

- Está vazio.

- Engole o choro!

Com o grito de Paulo, o rapaz derrubou o maço vazio no chão e calou-se.

- Agora vaza!

Rapidamente o jovem correu e pulou para fora do quarto, deixando pra trás sua mochila e a arma.

Paulo, então, ergueu a mão direita do vão. Apontou em direção à TV e usou o controle-remoto pra mudar de canal.

Paulo abriu a mochila do rapaz e descobriu que seu nome era Carlos, Carlos Nogueira dos Santos, o garçom do hotel.

Na mochila não havia drogas, nada ilícito que justificasse o assalto, apenas um crachá do hotel, livros de ficção e uma ordem de despejo em nome de Maria Aparecida Nogueira dos Santos.

Paulo preencheu um cheque no valor citado pela ordem de despejo e o colocou entre as coisas de Carlos. Entregou a mochila na recepção, alegando ter encontrado em um dos corredores.

Nas manhãs seguintes, daquela semana, Paulo recebeu o dobro de pães tostados em seu café da manhã.

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O HOMEM É AQUILO QUE COME...


O homem é aquilo que come...
(Caesar Pierini)


“O homem é aquilo que come”, dizia o postal com a foto de um esquimó.
Aquele postal esteve, por anos, pregado a parede de uma cantina.
Muitas pessoas viram a imagem impressa no cartão, mas nunca pararam pra ler a pequena frase.
Charles era uma exceção, sempre fora!
O filho feio da família, o menino estranho da escola, o que nunca namorou, nunca ouviram falar de amigos, mas o que mais lhe doía, era a feiúra.
Charles era feio, mas tão feio que nem a própria mãe era capaz de encontrar, nele, alguma beleza.
Dizem que até o branco dos olhos era feio, pois não era branco.
Não cortava os cabelos, pois não mudaria nada.
Não remendava suas meias, pois ninguém as veria.
Não lavava os dentes, pois não sorria.
Charles desenhava, desenhava bem e com isso se mantinha.
Uma família, que o viu menino, tinha pena da criatura e por isso comprava seus desenhos.
Num quase-ritual, a família passava pela porta da casa de Charles, enquanto caminhavam para a missa.
Os dois filhos tiravam nos dedos a sorte de se aventurarem entre o portão e a porta de entrada da casa.
Os pais paravam mudos, um dos meninos abria o portão de ferro e o outro entrava, batia na porta e passava um envelope com o dinheiro por baixo dela.
E tão silenciosamente quanto os demais, Charles passava, até as mãos do menino, um outro envelope.
E sempre em silêncio.
Lembro-me que, uma vez, a menor das crianças passou o envelope e tão logo o outro saiu, mostrando as pontas dos dedos de Charles pelo vão. No susto, o garoto gritou estridentemente, o mais moço riu e o domingo seguiu feliz.
O bairro do Bixiga era encantador!
O dono da cantina era pessoa tão boa, gente de alma caridosa, cristão. Tão cristão que alimentava Charles todas as noites, contanto que Charles esperasse do outro lado da rua, até que o último cliente saísse.
Numa das noites em que, lá, jantara, Charles viu o postal pregado na parede. E olhando para o prato de deliciosas nojeiras misturadas que lhe serviam, encontrou algum sentido na frase que dizia: “O homem é aquilo que come...”
Charles arrancou-o da parede e se foi.
Sua cama parecia menor naquela noite, o costume de dormir não lhe pesava os olhos.
A pequena frase lhe voltava à cabeça.
“O homem é aquilo que come...”
E o que ecoava, em poucos minutos, passara a gritar em um silencio perturbador.
“O homem é aquilo que come...”
Indo até o espelho, Charles se olhava e pela primeira vez incomodava-se com a sua figura.
A frase não parava de lhe atormentar.
- Dormir é impossível, andar talvez resolva – pensava Charles. E saiu.
Caminhava lentamente, não acostumado com a tal inquietude. Nunca sentiu falta da beleza, pois nunca a teve.
Andando por uma das estreitas e escuras ruas da vizinhança, Charles avistou um rapaz belo e moço.
A embriaguez não permitia que o rapaz percebesse a presença de Charles.
Além de Charles e o rapaz, uma moça, de vida indiscutível, passava pela rua.
A moça passou normalmente pelo embriagado, mas assustou-se ao passar por Charles.
Num tremor de raiva, Charles se aproximava do rapaz.
Próximo aos contornos do rapaz, ficava mais evidente sua feiúra, quanto mais se aproximava, mais grosseiros ficavam os rascunhos da sua face.
Charles olhava tentando encontrar alguma semelhança com o belo rapaz, mas não achava.
Seu nariz era tão repugnante e o do outro tão delicado.
E o rosto do rapaz passava a desaparecer sobre a visão de Charles, apenas o nariz se fazia presente.
O desejo tomava conta dos pensamentos de Charles. A vontade de ter, nele, o nariz que pertencia ao rapaz era grande e dolorosa.
A imagem do postal lhe veio à cabeça:
“O homem é aquilo que come...”
O esquimó que o ilustrava parecia consentir.
“O homem é aquilo que come...”
A boca de Charles se abria lentamente na direção da face do rapaz, enquanto sua mão tampava-lhe a boca.
E a comunhão se fez ato, entre o desejo e a fome.
Assustado, Charles acordou com o remorso de um pesadelo.
Foi lavar o rosto, para aliviar a tensão do sonho.
Os cabelos lhe cobriam o rosto, e a água, os unindo, levou-os até a nuca.
Seus olhos se arregalaram ao mirar o reflexo do espelho. Charles os lavou uma vez mais e outras tantas.
Seu nariz, naquela manhã, era igual ao do rapaz do sonho.
Um suspiro de espanto escondia um pequeno sorriso no canto esquerdo da boca.
A noite chegava, e com ela, a estreita cama e a frase... “O homem é aquilo que come...”
A certeza que caminhar resolvia, fazia com que Charles abrisse a porta.
Os pesadelos já não lhe apavoravam nas manhãs seguintes.
E o espelho se fazia querido.
As velhinhas rezavam pelas pobres pessoas, inexplicavelmente, mutiladas nas ultimas semanas.
Pessoas cochichavam, querendo saber quem era o belo jovem que mudara para a velha casa do portão de ferro.
O dono da cantina servia as sobras para os cães, que aguardavam ansiosos sobre os degraus da entrada.
– Afinal, cães não incomodam ninguém – Pensava o bom-homem.
A família, a mesma de outrora, ao passar pela casa exclamava:
- Que fim levara a pobre criatura??
Charles ao ouvir, sorria, escondendo um pequeno suspiro de espanto no canto esquerdo da boca.

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VOU-ME EMBORA PRA BAREQUEÇABA


Vou-me embora pra Barequeçaba.
(Caesar Pierini)

Hoje estou livre!
Livre das correntes que me prendiam o corpo
Dos trapos que me vendavam os olhos
Das mãos que me tampavam a boca.
Sinto o vento a me bater de frente
Os cabelos bagunçarem.
Vejo as pessoas me olharem,
Os semáforos abrirem,
As moças dos caixas me sorrirem
E os trens, enfim, partirem.
Onde estavam todos?
Em que escuridões se embrenharam os meus olhos?
Não quero saber!
Quero viver, e sentir e correr.
Correr como um louco, desvairando, entre os prédios, entre os carros.
Quero mudar de casa, construir uma casa.
Quero não ter casa, casos, lances e enlaces.
Farei da vida um acaso.
Caso mude de idéia, mudarei, por acaso.
Caso eu case, casarei por um acaso,
E só por isso, eu caso!
E só por isso escreverei,
Por isso cantarei,
E, meu pranto, derramarei.
Vou cortar meus cabelos,
Arrumar minha cama,
Perfumar meus travesseiros
E regar minhas plantas.
Vou-me embora pra Barequeçaba,
Pois Pasárgada não existe.
Seu Manolo me perdoe,
Mas Bandeiras, lá, são chistes.

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O DESEJO DE PHAEDRO

Phaedro era moço, e pensava e vivia como moço.
Morava só, na edícula de uma velha casa, de uma velha dona.
Revisava textos para um jornal quase falido e ganhava não mais do que necessitava para viver.
Suas únicas companhias eram: Margoth, a arquivista solteirona, que passava o dia cantando Mireille Mathieu, enquanto equilibrava seus grandes e quadrados óculos sobre a ponta do nariz; As pilhas e mais pilhas de papéis que forravam sua riscada mesa de mogno; e Greta, a velha dona da velha casa.
Findo o trabalho, e, após a alavanca do ponto ser puxada, Phaedro voltava para casa.
Sempre em passos largos, como se alguém o esperasse, caminhava com as mãos dentro de seu blazer cinza escuro.
Fumava um cigarro curto, em seis movimentos, e lançava-o precisamente no mesmo lugar, todos os dias, ao fazer a curva que o conduziria as escadas do metrô.
Com um movimento seco e impaciente, batia o bico do sapato no chão, esperando que a porta do trem abrisse.
Trinta e seis degraus acima, dezoito passos largos à esquerda e quarenta e três à direita, chegava em casa.
O ranger do velho portão, anunciava ao bule que começasse a apitar.
Sem que a campainha fosse tocada, Greta abria-lhe a porta diariamente.
Phaedro passava, pendurava seu blazer e sentava sobre a poltrona de veludo bordô à direta da sala.
Phaedro elegia o sabor do chá, dentre os, ali, existentes, e colocava-o na vazia xícara de porcelana pintada.
Greta despejava a água, olhando nos olhos do rapaz, que, ao mover a cabeça, confirmava a quantia desejada.
Então, a velha puxava seus ruivos e grisalhos cabelos até a nuca e prendia-os com apenas três voltas.
Sentada numa cadeira de espaldar alto e entalhada, acendia um longo e fino cigarro.
Fumava observando os lábios do rapaz se contraírem ao sugar pequenos goles da escaldante bebida.
Silenciosamente, retirava as xícaras e permanecia ausente enquanto o jovem, por sua vez, fumava.
Phaedro não sabia nada a respeito de Greta, apenas que era alemã, pois o disseram ao alugar a edícula.
Nunca ouviu sua voz, nem ruído algum produzido pela velha.
Somente ouvia uma melancólica e curta melodia, provinda de um porta-jóias ou caixinha de música, antes que as luzes da janela do quarto de Greta se apagassem.
As fotos espalhadas pela sala de Greta, lhe causavam curiosidade, mas nunca às apontou ou perguntou algo.
Gostava de imaginar quem seria aquela calada velha, que esteve em várias partes do mundo, e como, por fim, parou ali.
Sempre só, nas fotos, e nunca olhando diretamente para câmera, Greta parecia compor parte de cada lugar em que esteve.
Suas estranhezas se completavam e a convivência se satisfazia desses poucos minutos.
Em seu quarto, Phaedro tirava os sapatos, deitava e lia.
Lia muito e sempre.
Nunca saberemos o que lia, pois todos os seus livros eram encapados em papel pardo.
Penso que eram pardos para não distrair-se do conteúdo das histórias.
Mas apenas penso e não mais que isso.
Phaedro fechava as cortinas ao despir-se.
Motivo pelo qual não descrevo seus contornos.
Seus prazeres eram distintos aos dos outros; eram próprios.
Queria conhecer e decifrar o próprio corpo.
Era só e não, pois buscava em si a permuta do prazer.
Amava suas mãos e os pelos que as revestiam.
Experimentava, sem pressa, cada um de seus agrados.
Phaedro não buscava companhia, porém, a casualidade lhe provia alguns encontros, por palavras não ditas em olhares coniventes.
Não encontrava prazer no próximo, mas no seu prazer, refletido em outros olhos.
Não caberia julgar-lo, pois todos nós sabemos o que intentamos em pensamento sem, nunca, declarar.
Mas Phaedro o fez.
Em um encontro com a, propositadamente, afastada família, questionaram-lhe
sobre seu modo de viver e se pretendia casar-se ou não.
Respostas não saciavam a curiosidade, da qual todos se alimentavam, sobre a extensa mesa.
E enquanto Phaedro, de cabeça baixa, escrevia em um guardanapo, perguntaram-lhe o que desejava da vida.
O rapaz levantou, deixando sobre mesa o papel que dizia:

...Trago no peito um desejo intenso
De ver, pelos olhos meus, o corpo que me pertence
No seu-meu momento mais íntimo de prazer.
Eu, de mim para outrem, que seja eu e não, ao mesmo tempo.
Descobrindo que sabores possuo quando minha pele é espoliada,
Em quais recôncavos se escondem minhas delícias.
E quão cálidas, pulsam minhas saliências.
Quero sentir com que força jorram meus fluidos
E com que rapidez os pelos se eriçam, ao toque dos dedos meus;
Conhecer o calor da minha língua sobre toda sinuosa ou estreita curva
E a fome com a qual, minha boca, sugaria a fina pele que cinge os pescoços.
Quero saber quantos graus meus olhos se elevam nos últimos tremores
E o cheiro que meus poros exalam, após o derradeiro suspiro...


Caesar Pierini 10/10/08

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PARCIMÓNIA AQUARIANA


PARCIMÓNIA AQUARIANA
(Caesar Pierini)


Para que temer meu lado bicho,
Se é dele que brota o desejo?
Vive recusando minha fera,
Sabendo ser isso que te instiga.
Teima em fugir da minha fúria,
Sendo que, dela, lambuzou-se tantas vezes.
Por que se esconde dos meus olhos?
Eles que te enxergam, te conhecem e aceitam!
Insiste em ocultar-se,
Mas não suporta a distância.
Escraviza o tempo ao sufocar o intento,
Quer e não; some e aparece.
Ladra e treme; cheira e corre...
Diz que parte, sem dar as costas.
Manda-me embora
Estendendo-me as mãos.
Busca não desejar,
E beija.
Quer não mirar,
Mas vigia por olhos interpostos.
Planeia não me amar,
Sem saber como.
Foge sem ter para onde ir.

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...QUE SEJA EU E NÃO, AO MESMO TEMPO.


...QUE SEJA EU E NÃO, AO MESMO TEMPO.

Não, eu não estou louco!
Apenas dou vazão à torrencial forma da abstração,
Viva e em ebulição, sob a superfície do meu tórax.
Trago no peito um desejo intenso
De ver, pelos olhos meus, o corpo que me pertence
No seu-meu momento mais íntimo de prazer.
Eu, de mim para outrem, que seja eu e não, ao mesmo tempo.
Descobrindo que sabores possuo quando minha pele é espoliada,
Em quais recôncavos se escondem minhas delícias.
E quão cálidas, pulsam minhas saliências.
Quero sentir com que força jorram meus fluidos
E com que rapidez os pelos se eriçam, ao toque dos dedos meus;
Conhecer o calor da minha língua sobre toda sinuosa ou estreita curva
E a fome com a qual, minha boca, sugaria a fina pele que cinge os pescoços.
Quero saber quantos graus meus olhos se elevam nos últimos tremores
E o cheiro que meus poros exalam, após o derradeiro suspiro.


Caesar Pierini

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PEFIRO O PREÇO DE SER PASSIONAL

Ai, ânsia visceral que me consome e alimenta.
Seria, a vida, mais sublime e teria o mesmo sabor,
sem a intensidade em que vivo?
A superficialidade se apresenta, a mim,
tão monótona.
Prefiro o preço de ser passional.
Na veemência de suas delícias e escandalosas dores.
Nunca pertenci a bandos e nem me instiga tal vínculo.
Gosto de gente; de perto, a fundo e intimamente.
Não me interessa toda a gente.
Admiro os geniosos, os temperamentais,
os viscerais e contestantes.
Gente morna não me apetece, gosto das opiniões e
das divergências.
Despoticamente calmo, guardo para quem mereça minha impetuosidade, petulância e insolência.
E, na mesma proporção, o afeto, zelo e admiração.
Respeito todos, de longe.
Sempre me intitularam “melhor amigo”; gosto,
pela intimidade e não por exclusividade.
Exclusividade, só a do sexo, enquanto for possível.
Minha altura é estratégica, sou da miniatura da humildade, se tenho apreço;
E monstruosamente grande, quando deprecio ou invadem-me.
Mas, indiscutivelmente, educado.
Aceito a limitação alheia, porém, não a burrice.
Abomino o hipócrita, o falso-modesto e a distorção da autocrítica.
Gente em “busca da elevação espiritual” deveria permanecer calada.
E gente que cala deveria falar, mesmo que doa.




Caesar Pierini

THE INVITATION (autoria desconhecida)


...Não me interessa saber o que você faz pra ganhar a vida.

Quero saber o que você deseja ardentemente, se ousa sonhar em atender aquilo pelo qual seu coração anseia.

Não me interessa saber a sua idade.

Quero saber se arriscará a parecer um tolo por amor, por sonhos, pela aventura de estar vivo. Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com sua lua.

Quero saber se pode suportar a dor, minha ou sua, sem procurar escondê-la, reprimi-la ou narcotizá-la.

Quero saber se você pode aceitar a alegria, minha ou sua; se pode dançar com abandono e deixar que o êxtase o domine até as pontas dos dedos das mãos e dos pés, sem nos dizer para termos cautela, sermos realistas, ou nos lembrarmos das limitações de sermos humanos.

Não me interessa se a história que me conta é verdade.

Quero saber se você consegue desapontar outra pessoa para ser autêntico consigo mesmo, se pode suportar a acusação de traição e não trair sua alma.

Quero saber se você pode ver beleza, mesmo que ela não seja bonita todos os dias, e se pode buscar a origem de sua vida na presença de Deus.Quero saber se você pode viver com o fracasso, seu ou meu, e ainda, à margem de um lago, gritar para a lua prateada: “Posso!”

Não me interessa onde você mora e quanto dinheiro tem.

Quero saber se você pode levantar-se após uma noite de sofrimento e desespero, cansado, ferido até os ossos, e fazer o que tem de ser feito pelos filhos.

Não me interessa saber quem você é e o que veio fazer aqui.

Quero saber se você ficará comigo no centro do incêndio e não se acovardará.

Não me interessa saber onde, o quê, ou com quem você estudou.

Quero saber o que o sustenta a partir de dentro, quando tudo mais desmorona.

Quero saber se consegue ficar sozinho consigo mesmo e se, realmente, gosta da companhia que tem nos momentos vazios.


The Invitation – inspirado por Sonhador da Montanha Oriah, ancião índio americano.

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